Guitarra

Eira Velha, Arganil

Guitarra – Instrumento musical de cordas dedilhadas com caixa de ressonância em forma de pera que tem como antepassado longínquo a cítola medieval, muito referida nas cantigas de escárnio e mal-dizer do cancioneiro galaico-português, a qual passou à época renascentista com o nome de cítara, cultivada em toda a Europa.

A origem da actual guitarra portuguesa situa-se, segundo alguns autores, nesta cítara europeia, trazida até aos nossos dias por via popular (Pedro Caldeira Cabral, José Alberto Sardinha). José Alberto Sardinha releva o seu uso pelo nosso povo, sobretudo nas mãos dos músicos ambulantes, a que genericamente se dá o nome de ceguinhos na nossa tradição popular, músicos itinerantes responsáveis ao longo de séculos pela transmissão dos cantares narrativos (vide Romanceiro tradicional), cujo prolongamento esteve na origem do Fado – vide). Outros autores, porém, rejeitam essa teoria por falta de apoio documental e filiam-na na english guitar (guitarra inglesa) introduzida em Portugal no séc. XVIII através da colónia britânica no Porto – Rui Vieira Nery e Manuel Morais -, ao que os primeiros respondem que a guitarra inglesa não passa de uma variante erudita da referida cítara europeia.

Além disso, a english guitar só conhece a afinação natural, ao passo que a nossa guitarra possui variadas afinações, quer na prática fadista, quer nos meios rurais, muitas delas similares, outras sucedâneas das afinações documentadas para a cítara europeia, que terão, portanto, sido trazidas até aos nossos dias pela citada via popular.

Contrariamente ao que se julga, a guitarra não é exclusiva do fado, seja lisboeta seja coimbrão, antes se encontra difundida por todo o país, designadamente nas comunidades rurais, tanto nas mãos dos ceguinhos que cantavam as últimas notícias das tragédias e desgraças, como nas tabernas e nos barbeiros para entretenimento musical da clientela (à semelhança de outros países, como na chamada barbershop music), como ainda acompanhando as modas bailadas das mais diversas províncias.

Em muitas regiões do nosso país, a guitarra tornou-se o instrumento preferido, por vezes único, para a animação dos bailes da mocidade, conforme depoimentos orais da população rural e conforme registos obtidos nessas regiões. A pesquisa de José Alberto Sardinha tem revelado a implantação popular da guitarra pelas aldeias de todo o país, pelo menos desde finais do séc. XIX, como é o caso de recônditos lugarejos isolados na Serra de Estrela, ou na Serra de Mogadouro, onde chegaram a co-existir cinco tocadores do instrumento.

A sua aptidão para a execução musical de modas de baile fica patente na quadra popular colhida em Óbidos: “Encontrei o verde-gaio / Lá em baixo, à ribeira / Com uma guitarra na mão / Para ir p’rá brincadeira” (brincadeira é sinónimo de baile).Também o confirma a recolha musical de José Alberto Sardinha por todo o país, publicada nas suas obras, mormente em Portugal – Raízes musicais (v. infra). Em 1893, César das Neves, enumera a guitarra como um dos instrumentos populares, a par da rabeca e da viola, que ordinariamente acompanhavam a chula de Amarante.

Mais: Cabral, Pedro Caldeira – A guitarra portuguesa, Ediclube, 1999; Morais, Manuel – A guitarra portuguesa das suas origens setecentistas aos finais do séc. XIX, in A guitarra portuguesa, Lisboa, Estar; Nery, Rui Vieira – Nota introdutória a A guitarra portuguesa, coord. Manuel Morais; e Para uma história do fado, Público/Corda Seca; Sardinha, José Alberto – Tradições Musicais da Estremadura, Tradisom, p. 408 a 444; Sardinha, José Alberto – A Origem do Fado, Tradisom, Cap. 10, p. 311 a 326; Sardinha, José Alberto – A guitarra portuguesa na tradição rural, in A guitarra portuguesa, coord. Manuel Morais.  Discografia: Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 2, Lado B, Faixa 1 (S. Pedro de Paus, Resende) e Disco 3, Lado A, Faixa 3 (Paradela, Miranda do Douro); Portugal – Raízes Musicais, recolhas de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 1, Faixas 22 (Resende) e 25 (Celorico de Basto); CD 2, Faixas 7 (Macedo de Cavaleiros), 11 (Vinhais), 22 (Miranda do Douro) e 31 (Vinhais); CD 3, Faixas 6 (Arganil), 10 (Arganil), 22 (Arganil) e 24 (Tondela); CD 4, Faixas 1 (Fundão), 8 (Proença-a-Nova), 12 (Fundão), 25 (Penamacor) e 36 (Penamacor); CD 5, Faixas 16 (Borba) e 34 (Bombarral); CD 6, Faixas 12 (Açores – S. Miguel) e 16 (Açores – Terceira); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-532 (Coimbra); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixas 3 (S. Bento, Santa Maria da Feira), 7 (Ervedosa, Vinhais), 13 (Bemposta, Penamacor), 16 (Casal Diz, Penalva do Castelo), 20 (Febres, Cantanhede), CD 2, Faixas 1 (Santiago de Rio de Moinhos, Borba), 4 (Febres, Cantanhede), 6 (S. Cipriano, Resende), 8 (S. Roque, Santa Maria da Feira), 16 (Telhado, Fundão), 21 (Casal Diz, Penalva do Castelo), CD 3, Faixas 12 (Eira Velha, Arganil), 13 (S. Pedro de Paus, Resende), 14 (Janeiro de Cima, Fundão), 22 (Carvoeiro, Viana do Castelo).

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