Marcha – A marcha foi originariamente um género musical destinado a acompanhar a movimentação de grupos humanos, sobretudo militares, executada por instrumentos de sopro e percussão. O tratado de dança Orchésographie de Thoinot Arbeau, publicado em 1588, reflecte a marcha na sua componente estritamente militar, sem no entanto usar o título de marcha, e no século XVII Lully compôs muitas marchas militares para a corte francesa e para o exército. No século XVIII, Mozart, Haydn e Beethoven compuseram marchas, das quais a mais conhecida é a Marcha Turca, do primeiro deles.
O século XIX veio a assistir à definitiva popularização do género. As bandas militares foram os seus principais intérpretes, passando depois também as civis, ou filarmónicas, a tocar marchas, por composição e influência dos seus maestros que quase sempre acumulavam o cargo de direcção musical naquelas e nestas. De todas elas, que frequentavam, como continuam frequentando, os arraiais e festas, passou o povo, quer urbano, quer rural, a ouvir as marchas, lá de cima dos coretos, interpretando-as depois os tocadores de instrumentos tradicionais. Também as tunas foram um grande foco de divulgação do género.
Assim ouvindo marchas destas diferentes origens, o povo passou a bailá-las e depressa os tocadores populares (de flauta, de gaita-de-foles, de harmónio) conservaram na sua privilegiada memória as melodias que assim escutavam, passando depois a repeti-las, desenvolvê-las e recriando-as para o povo bailar. É esta a função coreográfica que o povo português maioritariamente atribuíu à marcha. A muitas delas, o povo introduziu letras para serem cantadas, as quais passaram a ser conhecidas, como cantigas bailadas, pelo inccipit ou por algum termo que ressaltasse dessa letra, acabando, nesses casos, por perder-se a denominação de marcha. Por isso, existem hoje na tradição popular muitos temas musicais que são marchas mas não estão identificados nem conhecidos como tal. Os gaiteiros, bem como os tocadores de pífaros integrados em grupos de caixas e bombos (Beira Baixa), interpretam muitas marchas solenes, de procissão, de rua e de peditório, quando acompanham as diversas situações das festas religiosas, entre as quais os círios estremenhos.
Por estranho que possa parecer a quem não está familiarizado com as tradições coreográficas populares, a marcha foi um género de grande preferência nos bailes do povo português. Armando Leça, num texto de 1917 assinala que “os tocadores de harmónio não se cansam de improvisar e parafrasear ritmos de polca ou marcha”[1].
Por outro lado, a marcha sucedeu à contradança na sustentação musical dos grupos coreográficos que em certas épocas festivas (santos patronais e também Entrudo) percorriam as ruas das aldeias, vilas e cidades como forma de exibição e afirmação bairrista.
Foi o caso das conhecidas Marchas de Lisboa.
Como já desenvolvemos em obras anteriores, as Marchas de Lisboa tiveram origem na velha tradição nacional dos cortejos músico-coreográficos que, durante séculos, animaram as mais variadas manifestações, desde as procissões religiosas (maxime as do Corpo de Deus e as do Espírito Santo) até certas cerimónias e acontecimentos civis de relevo, passando por ocasiões profanas de festas religiosas, como são os santos populares de Junho, ou outras puramente profanas como o Entrudo.
Tais cortejos, comuns às aldeias vilas e cidades de todo o país, percorriam as aldeias e lugares vizinhos, em Lisboa os bairros populares (como ainda hoje sucede na Póvoa de Varzim e Vila do Conde), como manifestação de exibição perante os outros e de afirmação colectiva da sua comunidade. Levaram variadas designações consoante as regiões e circunstâncias, como danças, brincas (Évora), ensaiados (Ourique), ditos (Murtosa), contradanças ou marchas, estas quando a música da contradança foi substituída pela da marcha.
Em Lisboa, cada bairro ensaiava a sua dança e circulava pelos restantes bairros em visitas vicinais congéneres às da ruralidade. Foram essas visitais vicinais dos bairros de Lisboa que serviram de inspiração a Leitão de Barros para organizar um cortejo festivo que juntasse esses grupos músico-coreográficos num único desfile pela Avenida da Liberdade abaixo, consagrado a partir de 1932. A escolha do género musical “marcha” determinou, assim, a denominação dessa manifestação popular da cidade de Lisboa.
Outra marcha que se tornou muito popular neste tipo de manifestações e cortejos festivos foi a chamada “Marcha do balão”, também conhecida por “Marcha do balão”, certamente invocando as conhecidas marchas “aux flambeaux”, cujo refrão é “Olh’ó balão/Olh’ó balãozinho/Olh’ó balão/(Que) vai na ponta do pauzinho”.
Esta “Moda do balão” é conhecida por todo o país e, além da Estremadura, já encontrámos a sua melodia em muitas outras províncias, como a Beira Alta, o Douro Litoral e a Beira Baixa. Mário Costa localiza-a em Lisboa, durante as marchas aux-flambeaux que se formavam espontaneamente nas festas dos Santos Populares de Junho, antes da estilização e organização das “marchas de Lisboa”, da iniciativa de Leitão de Barros[2].
Em pesquisa que realizámos há mais de trinta anos junto do estabelecimento musical “Olímpio Medina”, em Coimbra, detectámos a existência de várias solfas da colecção João Victoria e uma delas, com o nº. 114, é o “Olha o balão!”, com o seguinte sub-título: “One step – marche aux flambeaux, das ruas de Lisboa”. Assinala-se aí que a música é popular e que os versos são de João Victoria (calculamos que apenas as coplas, porque o refrão deverá ser do original popular). Trata-se, assim, de recolha de João Victoria nas ruas da capital. Já por várias vezes chamámos a atenção para a importância da actividade deste músico e para a necessidade do seu estudo. Colhemos essa melodia, ou simplesmente notícia da sua implantação pretérita, por exemplo, na região de Leiria, bem como no entorno de Óbidos, com pequenas variações de notas.
No lugar de Batalha, freguesia de São Quintino, concelho de Sobral de Monte Agraço, bem como nas vizinhas aldeias de Casal Barqueiro e Martim Afonso, era uso arreigado cantar-se a Moda do balão nos cortejos de Entrudo e noutras ocasiões festivas, como as dos santos patronais. Ainda hoje, em Olho Marinho, concelho de Óbidos, na Festa da Imaculada Conceição se organiza um cortejo com balões acesos, em que o povo, seguido da banda filarmónica, canta até à exaustão a Moda ou Marcha do Balão, ao redor do largo principal da aldeia, onde se situa o coreto.
Há, pois, que distinguir as marchas solenes, próprias para acompanhar procissões e cortejos de natureza cívica ou militar, ou simples toques de rua como alvoradas e peditórios, das marchas festivas, destinadas ao divertimento e à bailação. As primeiras são habitualmente compostas em compasso quaternário, ao passo que estas últimas são em binário.
[1] – Da Música Portuguesa, p. 24
[2] – Danças e dançarinos em Lisboa, p. 150.
Discografia: Faixas 11 (Cadriceira, Torres Vedras), 12 (Atalaia, Lourinhã), 15 (Fonte da Vaca, Palmela), 22 (Reguengo Grande, Lourinhã), todas do disco 3 que acompanha o livro Tradições Musicais da Estremadura, Tradisom 2000, de José Alberto Sardinha; Tunas do Marão, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixas 1, 5, 8, 17 e 19 (Carvalhais, Santa Marta de Penaguião), CD 2, Faixas 3 e 4 (Ansiães, Amarante), 11 e 14 (Gondar, Amarante) e 16 (Folhadela, Vila Real), CD 3, Faixa 3 (Gestaçô, Baião), 6 (Vinhós, Régua), 15 e 17 (Bisalhães, Vila Real), 19 (Pomarelhos, Vila Real) e 26 (Ermelo, Vila Real), CD 4, Faixa 1 e 4 (Soutelo, Santa Marta de Penaguião), 16 e 18 (Campeã, Vila Real) e 21 (Gontães, Vila Real).
N. B. – OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR, PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTO SARDINHA.
