Passecate

Passecate – Corruptela popular da palavra pas-de-quatre, ou da sua tradução passo-a-quatro. No ballet clássico, o pas-de-quatre é uma peça destinada a quatro bailarinos(as), em contraposição ao pas-de-deux, este para dois. A nível popular, a coreografia parece provir das longways inglesas que a França recebeu nos finais do séc. XVIII e difundiu depois por toda a Europa, incluindo Portugal. Quanto à música, o povo recebeu-a das classes superiores, que a executavam nos salões da nobreza e classes urbanas ricas do século XIX. Os exemplares que é ainda possível escutar na nossa tradição popular, sobretudo na Estremadura, mantêm a elegância e um balanço palaciano que lembra as suas origens. A coreografia que foi colhida na Estremadura assemelha-se à que é descrita nos tratados internacionais para esta dança, o que demonstra que poucas alterações sofreu na sua assimilação pelo povo: pares em coluna, intercalando homens lado a lado co as mulheres e de mãos dadas (e não homens de um lado e mulheres do outro, como na fandango). Quatro passos para a esquerda, logo seguidos de outros tantos até tornarem à posição inicial. Depois, na segunda parte, os pares dançam agarrados e “valseiam” primeiro para um lado e, na repetição, em sentido inverso.

As gravações de passecates realizadas por José Alberto Sardinha na Estremadura revelam a origem do tango – v. a obra “Harmónios da Estremadura”, no prelo. Oiçamos de início a formosa interpretação do Passecate da Assafora, concelho de Sintra, conservando a elegância do seu primórdio palaciano. Escutemos de seguida o mesmo Passecate, agora gravado em Monte Arroio, do mesmo concelho, e vemos que a interpretação é diferente: o ritmo imprimido pelo tocador transformou este último passecate… num tango! Fantástico!

Exactamente o mesmo podemos escutar no Passecate da Sancheira Grande, concelho de Caldas da Rainha. O passecate executado por Maria da Assunção (a célebre ceguinha da Sancheira) é, também ele um exemplo de interpretação senhoril e elegante. Mas o mesmo passecate, na interpretação de seu filho João da Siva Duarte, (note-se: que com ela aprendeu) conduz-nos exactamente em direcção a um tango, graças ao especial ritmo que adopta e às pausas e stachatos que utiliza.

Já se sabia que a música do tango que a Argentina consagrou provinha, naturalmente, da Europa e da música que os europeus para lá levaram. Agora fica deste modo localizada a sua origem: o antigo pas-de-quatre dos salões, que não veio só para Portugal e outros países. Viajou também para o outro lado do Atlântico.

Mais: Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, Tradisom 2000, p. 385-386; Harmónios da Estremadura, de José Alberto Sardinha, no prelo.

Discografia: Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha: Faixa 41 (Assafora, Sintra) do disco 3 que acompanha este livro; e ainda Portugal – Raízes Musicais, BMG/Jornal de Notícias 1997, recolhas de José Alberto Sardinha, CD 3, faixa 16 (Penacova).

N. B. – OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR, PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTO SARDINHA.