Acordeão

Acordeão – Aerofone de palhetas metálicas livres, cromático, uni-sonoro. O povo português chama acordeão ao instrumento musical que a organária oficial denomina por acordeão cromático. Para os diatónicos, o nosso povo adoptou outras designações, como harmónio e concertina (vide).

Esta família instrumental tem como princípio sonoro a vibração de uma palheta metálica livre (não batente, como a do clarinete) à passagem do ar, este fornecido por um fole que une duas caixas, cada uma destas com botões ou teclas para serem jogados pelos dedos de cada uma das mãos do tocador. O teclado (“botonêra” na linguagem popular quando não tem teclas mas sim botões) da mão direita destina-se à melodia, ao passo que o da mão esquerda dá os baixos de acompanhamento (“baixaria” na linguagem popular).

A invasão dos aerofones de palheta metálica livre na tradição popular portuguesa, operada a partir dos meados do séc. XIX, representou o último estrato instrumental de uma longa evolução histórica, que se sobrepôs ao que imediatamente o antecedeu, o dos cordofones (famílias instrumentais da viola e da guitarra portuguesas – vide).

Os primórdios da sua invenção e construção situam-se na década de 1820 na Alemanha e na Áustria, a partir do tipótono, um afinador de palheta metálica que se tocava com o sopro humano, a que foram adicionadas novas palhetas que, sopradas simultaneamente, davam um acorde perfeito – daí o nome de acordeão.

Seguidamente, aplicou-se o sistema à tónica e à dominante, após o que se inventou um fole ligado a uma caixa como forma de fornecimento de ar e vibração das palhetas. Como este primórdio de instrumento dava acordes, chamou-se-lhe accordion. Estava-se, porém, ainda muito longe do instrumento actual. Para ser atingida a formulação do que hoje conhecemos como acordeão (cromático), foram necessários muitos outros desenvolvimentos técnicos, ao longo de vários decénios.

Os primeiros instrumentos começaram a ser produzidos e exportados para toda a Europa. Eram diatónicos, isto é, só davam as sete notas da escala diatónica, possuíam apenas uma fileira de botões e entre o povo português foram denominados por harmónicas, harmónicos e harmónios (por síncope do c intervocálico) – vide Harmónio. O sistema era bi-sonoro, pois cada botão dava duas notas, consoante o fole era accionado para fora ou para dentro.

Mais tarde, veio a ser-lhes adicionada outra carreira de botões, de tonalidade diferente, a qual, embora também diatónica, já permitia maior amplitude musical, jogando com as duas tonalidades. Mantinha-se o sistema bi-sonoro. A este instrumento chamou o nosso povo harmónica de duas carreiras, mais tarde concertina – vide.

Por fim, o aperfeiçoamento do instrumento deu origem ao aumento de botões e à introdução do sistema uni-sonoro (cada botão dá apenas uma nota, quer o fole abra ou feche), o que tudo causou o aumento do volume do instrumento e permitiu a introdução da escala cromática, assim nascendo o instrumento que entre o povo português conhece o nome de acordeão. Este pode, no que diz respeito à caixa da mão direita, apresentar-se tanto em formato de teclado (teclas como as do piano, brancas para as notas naturais e pretas para as acidentais – e por isso, por vezes, se chegou a chamar também a este exemplar piano-acordeão), como sob a forma de carreiras de botões, em número variável.

A função essencial do acordeão foi a continuação dos seus antecessores: o baile popular. A sua introdução em Portugal ocorreu nos primeiros decénios do séc. XX e a fama dos seus intérpretes rapidamente suplantou os modestos tocadores de cordofones e de harmónios até então reinantes na nossa música popular. O surgimento dos acordeonistas introduziu, porém, o factor da profissionalização e, com ele, o da concorrência e da consequente necessidade de renovação de reportório, de aprendizagem com professor e de aprimoramento da interpretação. Sem prejuízo de terem recebido temas da tradição popular antecedente, grande parte deles aprendeu música e formou o seu reportório pela pauta, mesmo que depois passasse a tocar de ouvido.

Havia em várias cidades (Lisboa, Porto e Coimbra, pelo menos) casas de música com copistas que transcreviam para a solfa as músicas em voga, da revista, da rádio e do disco, mas também algumas que corriam na tradição, donde foram colhidas (aqui desempenhou papel importante João Victóriavide). Muitos acordeonistas encomendavam pelo correio as pautas musicais desses temas. O mesmo acontecia com os professores do instrumento que existiam um pouco por todo o lado, mesmo em aldeias (v.g. Augusto Roldão, da Gondruzeira, Torres Vedras), uns mais modestos, outros de nomeada (Matono, Lisboa).

O reportório dos acordeonistas era, portanto, híbrido, parte recebido da tradição oral, parte aprendido por via escrita (partitura). Mas mesmo da pauta, os acordeonistas receberam muitos exemplares de valsas, marchas, polcas, mazurcas, chotiças, pelo que, a par das bandas filarmónicas e das tunas, desempenharam papel importante na difusão entre o povo destes ritmos procedentes da Europa central.

Foram igualmente responsáveis pela introdução no gosto popular dos últimos ritmos da moda, já do séc. XX: o maxixe, o tango, o pasodoble, o fox-trot (e bem assim, como se disse, no meado da centúria, dos êxitos da revista, da rádio e do disco, de que se destacam as marchas de Lisboa e temas popularizantes oriundos dos chamados conjuntos típicos). A sua acção desenrolou-se sobretudo no sul e centro do país, incluindo a Beira Baixa, pelo que terão sido determinantes na implantação do baile agarrado e no abandono, nestas regiões, do baile solto ou aberto (vide Coreografia popular).

Sobre a invenção e os primórdios do instrumento, v. Harmónio.

Mais: Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, Tradisom 2000, p. 448 a 457; Harmónios da Estremadura, de José Alberto Sardinha, no prelo. Discografia: Portugal – Raízes Musicais, recolhas de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 4, faixa 10 (Castelo Branco).

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