Vira

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Vira – Canção bailada de grande popularidade e disseminação nacional, com estrutura rítmica de base ternária em 3/4 ou em 6/8, conforme as versões. Afirma-se por vezes que é própria, exclusiva, ou pelo menos originária do Minho, mas as recolhas efectuadas por todo o país e o estudo das suas origens históricas não autorizam uma tal asserção. A sua proximidade musical com a gota, a tirana, as saias, leva-nos a uma provável origem comum, talvez derivada da antiga seguidilha.

Coreograficamente, é um baile aberto (vide) por vezes numa roda que rapidamente se transforma em quadrilha (grupo de quatro bailadores) que gira, cruza, vai ao centro, bate, troca de par, evoluções que originaram várias denominações, como vira de cruz, vira rodado, batido, etc. O nome de “vira” provém do facto de, em certa altura da evolução coreográfica, a roda ou os bailadores alterarem o sentido dessa evolução, passando a bailar em sentido contrário ao que vinham executando, geralmente com gritos de “Vira! Virou!”

É de salientar que no Cancioneiro de Músicas Populares, editado na última década do séc. XIX, apenas foi incluído um vira, notado em 6/8, denominado “Vira Varino”, e aí identificado como sendo uma chula. Em face do compasso, admite-se que esta última denominação provenha do facto de o colector considerar esta dança como “popular”, de gente “baixa ou chula” – v. Chula. Recolhido nas praias do Furadouro, Ovar, o colector informou que ali era conhecido por Vira do Minho. Esta ligação do vira à província minhota, feita nos anos 1890, é importante porque demonstra que já nessa época era estabelecida essa relação, pelo menos quanto a este vira em concreto (poderia haver na localidade outros viras que não fossem “do Minho”). Em face da ausência de outras notícias oitocentistas, não se pode ir muito além disto. Poderia, pois, ter-se dado o caso de os viras do Minho terem uma tal preponderância em relação aos de outras províncias que se expandiu a ideia de que os viras eram originários desta província. Como quer que seja, ou tenha sido, a verdade é que ao longo do séc. XX os investigadores registaram viras em outras províncias – v. infra a discografia, nomeadamente a referente a Armando Leça.

A sua coreografia é assim descrita na mencionada notícia oitocentista: “Em grande roda, vão os pares girando sobre a esquerda, balanceando-se durante a quadra. No estribilho, cada par, de braços erguidos, dando estalinhos com os dedos, roda sobre si independentemente e cada indivíduo gira sobre si mesmo acompanhando a música e virando conforme diz a letra”.

Para se poder avaliar e estudar as origens do vira, do fandango, da tirana, das saias, danças todas elas de base ternária e provavelmente situadas, como se disse, na antiga seguidilha, é importante reproduzir a observação de César das Neves, em nota de rodapé a este Vira varino: “Tanto a música como a dança recorda-nos um fandango andaluz” – v. Fandango.

Discografia: Portugal – Raízes Musicais, de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 1, Faixa 3 (Barcelos), CD 3, faixa 1 (Murtosa). Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-459 (Bucos, Cabeceira de Basto), AF-523 (Palmeira, Braga e Vila Verde), AF-527 (Lordelo, Paredes), AF-528 (Paços de Ferreira), AF-529 (Ovar), AF-530 (Estarreja), AF-531 (Bom Sucesso, Aveiro e Vila da Feira), AF-532 (Condeixa e Coimbra), AF-538 (Outeiro, Sertã), AF-536 (S. Pedro do Sul).

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