Violão

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Violão – Instrumento musical descendente da viola barroca (V. Viola), por simplificação desta, operada nos finais do séc. XVIII, princípios do XIX: as cordas duplas e triplas passaram a singelas e, tendo desaparecido os bordões, anteriormente assegurados pelas duas cordas triplas nos graves, sentiu-se a necessidade de uma corda que os substituísse, assim nascendo o mi grave. Arma, pois, com seis cordas singelas afinadas em mi-si-sol-ré-lá-mi.

A popularização do violão determinou o desaparecimento da viola, sua antecessora, em muitos países, mas não em Portugal. No sul do nosso país, mormente na região de Lisboa, onde a viola de cordas duplas deixou de ser cultivada, o violão, por simplificação fonética, ganhou o nome de viola, ainda hoje assim designada nos meios do fado. Também por vezes chegou a dar-se ao violão o nome de viola francesa, precisamente para a distinguir da viola popular portuguesa, a nossa viola de arame ou viola de cordas duplas (e triplas nos bordões, consoante a sua formulação barroca – vide Viola). No Norte manteve-se o nome de violão, para se não confundir com a viola, aí reinante.

No Almanaque de lembranças para 1860, um artigo sobre a romagem da Senhora das Neves, Viana do Castelo, fala dos romeiros “cantarolando e dançando ao som de seus afinados instrumentos, que são pela maior parte, duas ou três violas, igual número de clarinetas e rebecas, algumas vezes o belo violão e sempre as castanholas hemisféricas de seco e duro buxo”. A referência separada a violas e a violão indica claramente a diferença entre os dois instrumentos  – é de interesse consultar a entrada “viola”.

O violão (por simplificação viola no sul, sobretudo nos meios do fado) tem vindo a ser designado, de há cerca de quinze ou vinte anos para cá, por guitarra, fenómeno que, tendo raízes na denominação de guitarra clássica nos meios cultos, ganhou agora foros de irreversibilidade. Provém de espanholismo ou anglicismo, pois em espanhol o seu nome é guitarra (e por isso entre nós ainda se fala, por vezes – e aí correctamente -, em guitarra espanhola) e em inglês é guitar. Só em Portugal e no Brasil se chama viola ao instrumento musical em forma de oito ainda na sua formulação de cordas duplas e violão ao seu sucedâneo. É, pois, completamente errado chamar-se guitarra tout court a este instrumento, visto que, em língua portuguesa, guitarra (vide) é o instrumento periforme da família das cítaras, a que, por isso, também chamamos guitarra portuguesa (justamente para não haver confusão com a guitarra espanhola, nosso violão). Deverá antes chamar-se-lhe, para uma correcta terminologia, guitarra clássica ou guitarra espanhola.

A este respeito mantém-se acesa polémica, porque a tendência para denominar este instrumento por “guitarra”  quer impor esta designação e defende mesmo que ela sempre existiu em Portugal, o que não corresponde à verdade. Até finais do séc. XX, mesmo nos meios da música pop e rock, o nome correntemente adoptado era o de viola: viola-ritmo, viola-baixo, viola-solo. Nos meios rurais, sempre foi conhecida por violão, menos frequentemente por viola; nos meios urbanos, onde a viola popular de cordas duplas e triplas havia desaparecido, mormente no circuito do fado, também era denominação corrente o nome de “viola”, por simplificação de violão. A designação de guitarra (clássica) começou a surgir nos meios eruditos dos concertos da Gulbenkian (concertos de “guitarra clássica) e a partir da “escola de guitarra” de Duarte Costa, fundada em 1953. Mesmo assim, pode-se dizer, sem receio de errar, que até à década de 1980 apenas escassas centenas de portugueses usariam a denominação de guitarra (clássica ou espanhola, tendo porém estas palavras caído em desuso por simplificação), ao passo que os restantes milhões de portugueses continuavam a chamar viola (violão no Norte) ao instrumento.

Aliás, a definição de violão fornecida pelo Dicionário Musical de Ernesto Vieira, editado em 1890, não deixa margem para dúvidas: “Violão ou Viola Francesa (fr. guitare, all. guitarre, it. chitarra) – Instrumento de cordas dedilhadas, um dos mais generalizados que hoje existem. O violão é armado com seis cordas, das quais três são cordas simples de tripa, e três são bordões cuja fieira é enrolada em fios de seda.” De seguida, fornece a afinação, que é a acima referida: mi-si-sol-ré-lá-mi.

O mesmo se diga relativamente à definição do Dicionário de Música, de Tomaz Borba e Fernando Lopes Graça, editado em 1958: “Violão – Designação portuguesa do instrumento de cordas dedilhadas, com a forma de 8, conhecido geralmente nos outros países por guitarra.” Informam os autores seguidamente que o violão se limitava ao “acompanhamento das antigas modinhas e dos fados variados da guitarra”.

Discografia: A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixas 10 (Sobreiró de Baixo, Vinhais), 16 (Casal Diz, Penalva do Castelo), CD 3, Faixas 1 (Cetos, Castro Daire), 3 (Boscras, Baião), 5 (Torredeita, Viseu), 8 (Couto de Cima, Viseu), 10 (Pias, Cinfães), 12 (Eira Velha, Arganil), 13 (S. Pedro de Paus, Resende), 17 (Vilarinho da Samardã, Vila Real), 18 (Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel), 19 (Santa Maria da Feira), 21 (Posto Santo, Ilha Terceira), 22 (Carvoeiro, Viana do Castelo); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-530 (Gulpilhares, Vila Nova de Gaia – “No meio daquele mar” e “Parreirinha”).

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