Serração da Velha

Vestiaria, Alcobaça, 1984

Serração da velha – Velha costumeira de simular a serração de uma velha, em frente à sua porta, em quarta-feira do meado da Quaresma, comum a muitos países da Europa, i. a. Portugal, Espanha, França, Itália, Suíça. Os rapazes dirigem-se à casa das mulheres que ficaram avós durante o último ano e, com um serrote, serram um cortiço, gritando: “Vamos serrar esta velha! Tiço, tiço, tiço, venha a velha p’ró cortiço!” A brincadeira pode, ou não, ser acompanhada por testamento e nalguns casos leva cantoria.

Como durante a Quaresma não havia bailes, aproveitava-se o pretexto da mi-câreme (precisamente essa quarta-feira do meio da Quaresma), após a serração da velha, para celebrar a viragem dos quarenta dias de recolhimento e tristeza, nas localidades onde os mais velhos eram mais permissivos, com um bailarico que em certas regiões passou a ter um jogo de fitas presas a uma pinha para sortear o rei e a rainha, que por isso ganhou o nome de baile da pinhata.

A mais antiga alusão à serração da velha em Portugal parece ser a de Francisco Rodrigues Lobo, em Corte na aldeia, nos princípios do séc. XVII. Carlos Lopes Cardoso refere um folheto de cordel de 1685 atinente à costumeira. A tradição estava tão arreigada e ganhou tal popularidade que, nos centros urbanos, principalmente Lisboa, chegou a ser dramatizada para apresentações públicas, anunciadas em folhetos de cordel com a respectiva versalhada, graçolas e testamento, nos sécs. XVII, XVIII e XIX.

Do ponto de vista musical, os gritos de “Serra a velha!” não possuem propriamente linha melódica. São na verdade meros gritos, ou, por vezes, recitativos muito elementares. No que respeita às restantes partes da representação, aplicam-se frequentemente melodias em voga com letras adequadas ao caso, em contrafactum. Em outros locais, a parte musical está a cargo de elementos das filarmónicas locais, pelo que as partes cantadas têm por base valsas, marchas ou outros géneros musicais próprios desses agrupamentos instrumentais (Vestiaria, Alcobaça). Para a caminhada em direcção ao local do julgamento, pelas ruas da localidade, junta-se muitas vezes numeroso e heterogéneo grupo instrumental, que pode mesmo incluir gaita-de-foles (Arelho, Óbidos), e bem assim instrumentos ruidosos como o reque-reque, ferrinhos, caixas e bombos.

Mais: Tunas do Marão, de José Alberto Sardinha, p. 196 a 198; Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, p. 219 a 224. Discografia: faixas 25 a 28 (Miragaia, Lourinhã; e Vestiaria, Alcobaça) do CD 2 que acompanha este último livro; faixa 14 (Vila Real) do CD 3 que acompanha o livro Tunas do Marão; Cancioneiro Tradicional de Óbidos, de José Alberto Sardinha, no prelo; e ainda Portugal – Raízes Musicais, recolhas de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 2, faixa 18 (Montalegre).

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *