Segada, Cantiga da

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Segada, Cantiga da – Canto de trabalho entoado durante as segadas (ceifas) do centeio no nordeste trasmontano, duma forma arrastada e vigorosa, como é próprio destes cantos de ar livre. Os textos poéticos destes cantos são romances tradicionais – vide. Mas o que mais assinalável torna a cantiga da segada é o facto de, não obstante estar espalhada por uma vasta área trasmontana, sensivelmente coincidente com a chamada Terra Fria, apresentar uma mesma melodia com poucas variações e de adoptar uma singular estrutura musical: trata-se de um canto antifonal, entoado alternadamente por um homem e uma mulher, sendo que a voz masculina inicia numa tessitura particularmente aguda, própria para cantar no campo e incentivar o rancho dos segadores, espalhados ao longo da seara. Lá ao longe responde a voz feminina que, adoptando um registo médio, faz na realidade uma quinta superior ao homem, mas que, dada essa tessitura média e as diferenças vocais entre o homem e a mulher, oferece a curiosíssima sensação de se situar numa quarta inferior.

Por outro lado, quanto à estrutura poética, importa referir que a voz feminina repete sempre o verso longo do romance tradicional adiantado pelo homem, sendo que essa repetição é obrigatoriamente antecedida pelo relembrar paralelístico do primeiro verso longo do poema narrativo, sendo o seu primeiro hemistíquio cantado por ela e o segundo por ele.

Esta complicada estrutura poético-musical era obrigatória para uma correcta interpretação deste canto de trabalho, do mesmo passo que faz da cantiga da segada um caso único nos cantos de trabalho. Chegado ao fim do romance, o que podia demorar uma hora, dada a extensão do texto poético e a sua constante repetição nos termos explicados, o rancho de segadores canta o chamado “remate da cantiga”.

Além deste típico cantar, outros eram também interpretados durante as segadas no norte do país, como algumas modas de roda ou de baile, ou também a “Serena de la noche” (Miranda do Douro) e outros romances com melodia própria, ou ainda o belíssimo canto “Sega e não sega” registado por José Alberto Sardinha em Águas Santas, do concelho de Vila Real.

Discografia: Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, ed. 1982, recolhas de José Alberto Sardinha, Disco 3, Lado A, Faixa 4 (Vilar de Ossos, Vinhais); Portugal – Raízes Musicais, BMG /Jornal de Notícias 1997, CD 2, faixas 12 (Águas Santas, Vila Real) e 35 (Vinhais); Canções da Avó Guida, recolha em Vilarandelo, Valpaços, de Melissa Fontoura/José Alberto Sardinha, Faixa 44 do CD que acompanha o livro; Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo da RDP, bobine AF-457.

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