Rusga

Rusgas ao S. João, Braga, 1998

Rusga – 1. Grupo de populares, em festada musical, tocando e cantando pelas ruas, em direcção a festas, feiras, romarias, matanças de porco, desfolhadas ou outros serões, muito frequentes no Minho, Douro e Beira Litoral (exs.: rusgas do S. João em Braga, rusgas ao Senhor da Pedra, perto de Espinho). Instrumentos habitualmente utilizados: violas, violões, cavaquinhos e concertinas, além de reque-reque, ferrinhos e bombo.

Alguns destes grupos, pela perdurabilidade e regularidade de ano para ano, vieram a constituir-se em agrupamentos de representação folclórica, como foi o caso da rusga do bairro de S. Vicente, em Braga, que, depois de muitos anos a percorrer as ruas da cidade até à capela de S. João na noitada de 23 para 24 de Junho, acabou por começar a ensaiar para exibições públicas noutras circunstâncias e formar um grupo etnográfico formal.

2. Talvez por, antigamente, existir um género musical e coreográfico mais usado pelas rusgas, persistiu na tradição popular do Douro Litoral uma determinada forma musical com esse nome, como a conhecida “Rusga ao Senhor da Pedra”, romaria perto de Espinho. A origem musical da Rusga deverá situar-se no passacalhe, velho género musical utilizado pelo povo ibérico para tocar e cantar pelas ruas (pasear por las calles – vaguear, rondar, pelas ruas), nas tradicionais rondas dos rapazes pelas ruas e largos das povoações, o qual veio, no séc. XVIII, a conhecer consagração erudita, pois foi cultivado por vários compositores, como Lully, Gluck e Bach.

Mais tarde caído em desuso entre as classes elevadas, o passacalhe manteve-se na tradição popular e, graças à enorme versatilidade da sua estrutura musical (base harmónica com alternância entre a tónica e a dominante, permitindo grande variedade de formulações melódicas), veio a tornar-se um tronco comum de muitos géneros bailados pelo nosso povo, como os fados corridos, a chula, a cana-verde, a rusga, alguns pezinhos, alguns malhões. Esta fonte comum para todos estes sub-géneros, ou melhor, espécies, tem dado origem a algumas confusões, como: em Terras da Feira, o fado bailado leva o nome de Rusga Virada; Pedro Homem de Mello sugere que a Rusga ao Senhor da Pedra é um “autêntico fado corrido”.

Mais: A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, p. 248-249, 274 a 279; Braga na Tradição Musical – a Rusga de S. Vicente, de José Alberto Sardinha, Tradisom, 2002. Discografia: Portugal – Raízes Musicais, BMG/Jornal de Notícias 1997, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixa 1 (Santa Maria da Feira); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 3, Faixa 19 (Santa Maria da Feira); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-528 (Silva Escura, Maia), AF-531 (Esmoriz, Ovar), AF-533 (Castelões, Vale de Cambra).

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