Romanceiro tradicional

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Romanceiro tradicional – O romance tradicional é um género poético narrativo (e musical, visto que se trata de poemas para serem cantados) peninsular, que constitui a variante ibérica da balada europeia e encontra as suas origens nas gestas medievais, poemas (e cantares) épicos sobre grandes acontecimentos bélicos, façanhas de heróis da guerra contra a moirama (de que é exemplo maior o Cantar de Mio Cid) e sobre outros factos históricos.

Com o decurso dos séculos, os romances épicos e históricos foram cedendo o passo aos novelescos (histórias de amores e desamores de reis, princesas, cavaleiros e gente fidalga), até que, pelo séc. XVII, passaram a tratar de aventuras de bandidos, crimes, histórias exageradas de amor, tragédias, assim terminando a fase do romanceiro velho e começando o chamado romanceiro vulgar, este desprezado pelas classes cultas de então.

Por fim, na segunda metade do séc. XVIII, a cesura do verso longo monorrimático de dois hemistíquios, próprio do romance tradicional, fez nascer dois versos heptassilábicos, com rima alternada, e, conseguintemente, a natural necessidade de agrupamento estrófico para dar sentido e apoiar a mobilidade rimática, dando definitivamente lugar à estrutura estrófica com predomínio da quadra. Assim nasceu outro género poético, designado pelos estudiosos por canção narrativa, mas que mais apropriadamente se poderá denominar romanceiro de cordel ou romanceiro de cegos, por ter sido protagonizado por estes pobres músicos mendicantes, de que foram sendo compostos textos poéticos até aos nossos dias. Estes tiveram como tema os amores e traições das gentes simples, já não de gente fidalga. Ciúmes, desastres, tragédias, suicídios por amor contrariado, sofrimento da orfãzinha maltratada pela madrasta, histórias macabras e até escabrosas, de tudo isto tratavam os ceguinhos nos seus cantares narrativos. Eram o jornal das classes pobres.

José Alberto Sardinha, estudando toda a descrita evolução temática do romanceiro, defende a tese de que esta última fase do romanceiro representa o fado primitivo, ou seja, que o Fado é um prolongamento do romanceiro tradicional – v. Fado. Todos estes poemas narrativos foram, naturalmente, cantados com acompanhamento dos mais variados instrumentos musicais ao longo dos séculos. Os seus principais intérpretes foram os jograis, que os cantavam tanto na corte, nos palácios e castelos, como nas feiras, romarias e festas populares, bem como toda a sorte de músicos ambulantes que andavam de terra em terra vendendo a sua arte musical a troco da espórtula, de que se destacavam os cegos músicos, a que o nosso povo chama carinhosamente ceguinhos.

As gentes das aldeias, vilas e cidades que, sempre com muita atenção, os escutavam pela ruas e pelas feiras e lhes compravam os folhetos impressos que vendiam, repetiam depois o que deles ouviam e foram conservando na memória os romances que mais impressão lhes causavam, transmitindo-os de geração em geração. Depois, com o decurso dos tempos, foi sobretudo o povo rural que conservou até aos nossos dias esses romances, alguns de ancianidade comprovada e de grande riqueza poética e musical, graças ao facto de os ter cantado durante séculos nos seus trabalhos agrícolas, nos serões vicinais, nos fiadeiros (vide), nas desfolhadas (vide), enfim, nas mais variadas circunstâncias da sua vida quotidiana.

A poética do romanceiro tradicional tem merecido o estudo de grandes vultos da nossa literatura e da investigação romancística, mas a componente musical não tem, infelizmente, beneficiado de igual atenção. Há, ainda assim, muitos romances tradicionais transpostos para a pauta musical e sobretudo gravados pelos colectores musicais, como Armando Leça, Michel Giacometti e José Alberto Sardinha.

Mais: A Origem do Fado, Tradisom 2010, de José Alberto Sardinha, p. 39 a 122; Tradições Musicais da Estremadura, do mesmo autor, p. 109 a 130; Discografia: faixas 20 a 33 do disco 1 e faixa 1 do disco 2, os quais acompanham este último livro (romances de Torres Vedras, Alcobaça, Loures, Caldas da Rainha, Batalha, Leiria); Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 1, Lado B, Faixa 7 (S. Martinho de Crasto, Ponte da Barca), Disco 2, lado A, Faixa 3 (Boassas, Cinfães), Disco 3, Lado A, Faixas 4 (Vilar de Ossos, Vinhais) e 8 (Constantim, Miranda do Douro); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixas 1 (Samardã, Vila Real), 2 (Samardã, Vila Real), 3 (S. Bento, Santa Maria da Feira), 4 (Ervedosa, Vinhais), 5 (Proença-a-Nova), 6 (Coutada, Covilhã), 8 (Samardã, Vila Real), 9 (Montes da Senhora, Proença-a-Nova), 10 (Sobreiró de Baixo, Vinhais), 11 (Cascais/Lisboa), 12 (Troviscal, Sertã), 13 (Bemposta, Penamacor), 14 (Vilar de Perdizes, Montalegre), 15 (Santiago de Litém, Pombal), 16 (Casal Diz, Penalva do Castelo), 17 (Várzea de Calde, Viseu), 18 (Alva, Castro Daire), 19 (Murteira, Torres Vedras), 21 (Idanha-a-Nova), 23 (Rendufinho, Póvoa de Lanhoso), CD 2, Faixas 2 (Tuizelo, Vinhais), 3 (S. Pedro do Esteval, Proença-a-Nova), 5 (Videmonte, Guarda), 6 (S. Cipriano, Resende), 7 (Corta Porcas, Monchique), 8 (S. Roque, Santa Maria da Feira), 9 (Pampilhosa do Botão, Mealhada), 10 (Corte Malhão, Odemira), 12 (Videmonte, Guarda), 13 (Proença-a-Nova), 14 (Troviscal, Sertã), 15 (Santiago de Litém, Pombal), 16 (Telhado, Fundão), 17 (Castro Marim), 18 (Quadra, Vinhais), 19 (Sobral do Campo, Castelo Branco), 20 (Videmonte, Guarda), 21 (Casal Diz, Penalva do Castelo), 23 (Vilar de Ossos, Vinhais).

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