Rabeca, rebeca (ant.)

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Rabeca, rebeca (ant.) – Proveniente da palavra rabel, rabeca é a designação antiga, tanto a nível erudito como popular, do actual violino. O Conservatório Nacional substituíu-a, em 1901, por violino, que só a partir de então passou a ser o nome oficial do instrumento. Entre o povo, porém, permaneceu até hoje a antiga designação, rabeca, para mencionar genericamente o violino (chamando-se rabecão indistintamente ao violoncelo e ao contrabaixo). Alguns tocadores há que já chamam violino ao instrumento, na senda de requalificação terminológica empreendida pelos eruditos, mas a grande maioria dos intérpretes populares continua utilizando o antigo termo de rabeca.

Na tradição popular portuguesa, a rabeca é utilizada sobretudo nas modas bailadas, sendo também instrumento central no reportório das tunas, tanto académicas, como urbanas, como rurais. No Almanaque de Lembranças para 1860, um artigo sobre a “Romagem da Sra. das Neves”, Viana do Castelo, fala dos romeiros “cantarolando e dançando ao som de seus afinados instrumentos, que são pela maior parte, duas ou três violas, igual número de clarinetas e rebecas, algumas vezes o belo violão e sempre as castanholas hemisféricas de seco e duro buxo”.

Na região de Baião e Amarante floresceu uma rabeca de braço mais curto e, portanto, de som mais agudo, a que o povo chamou rabeca chuleira (vide) por se destinar exclusivamente a tocar a chula local, dança de enorme popularidade, que se bailava por vezes durante horas seguidas (acompanhada com o violão “assurdinado” no quinto ponto). A construção deste instrumento só para a bailação da chula demonstra a enorme popularidade de que desfrutava esta forma músico-coreográfica. O mesmo terá acontecido, segundo Sampayo Ribeiro, com a chula de Ramalde, cuja popularidade também originou o aparecimento de rabecas ramaldeiras, “iguaizinhas às chuleiras”.

Note-se que Tomás Borba e Fernando Lopes Graça, no seu Dicionário de Música, também fazem referência à rabeca ramaldeira, quando enumeram os instrumentos populares que costumam acompanhar o vira (respectiva entrada) – fica-se porém, sem saber se é a rabeca de braço curto, ou se o termo ramaldeira é aí utilizado apenas como sinónimo de “brincadeira” (vide), como acontece por vezes com a viola, sem que isso queira indicar alguma característica morfológica especial. Em virtude de a chula ser muito executada pelos agrupamentos ambulantes denominados em certas regiões por rabelas (vide), o instrumento de braço curto também é, nas regiões em que esses grupos levam esse nome, conhecido por rabeca rabela.

A solução de utilizar um violino de reduzidas dimensões, com braço curto, não é inédita, i. e., não é privativa do povo da referida região nortenha, nem tão pouco do povo português: estamos, na verdade, perante um violino picollo, por vezes utilizado pelos compositores eruditos, como foi o caso de Bach no seu 1º Concerto Brandeburguês.

Recentemente, vê-se em certos escritos utilizada a palavra rabeca para designar a rabeca chuleira, mas erradamente. Rabeca, proprio sensu, não é sinónimo de rabeca chuleira, mas sim de violino em geral, pois constitui, como se disse, o resquício terminológico, a nível popular, da denominação antiga do actual violino. Rabeca chuleira (ramaldeira, rabela) é apenas um sub-tipo, ou espécie, da rabeca, como acima fica explicado.

Mais: Instrumentos Musicais Populares Portugueses, de Ernesto Veiga de Oliveira; José Alberto Sardinha, Tunas do Marão, p. 221 a 225, Tradisom, 2005. Discografia: Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 2, Lado B, Faixas 1 (S. Pedro de Paus, Resende) e 9 (Cetos, Castro Daire); Portugal – Raízes Musicais, recolhas de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 1, Faixas 22 (rabeca – Resende) e 25 (rabeca – Celorico de Basto) e 5 (rabeca chuleira – Baião); CD 2, Faixas 2 (Santa Marta de Penaguião), 20 (Santa Marta de Penaguião) e 27 (Vila Real); CD 3, Faixas 2 (Castro Daire), 8 (Castro Daire), 12 (S. Pedro do Sul), 14 (Castro Daire), 16 (Penacova), 24 (Tondela), 26 (Castro Daire), 28 (Viseu) e 30 (Castro Daire); CD 6, Faixas 8 (Madeira – rec. António Aragão e Artur Andrade), 12 (Açores – S. Miguel), 19 (Madeira, Porto Santo – rec. Xarabanda) e 27 (Madeira, Porto Santo – rec. Xarabanda); Tunas do Marão, de José Alberto Sardinha – quase todos os 90 registos sonoros são interpretados com rabeca, sendo um deles com rabeca chuleira: faixa 14 do CD 4, gravado em Viariz, Baião; Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-525 (rabeca chuleira, Travanca do Monte, Amarante), AF-528 (Penafiel e Silva Escura, Maia); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 2, Faixa 6 (S. Cipriano, Resende), CD 3, Faixas 1 (Cetos, Castro Daire), 3 (Boscras, Baião), 5 (Torredeita, Viseu), 8 (Couto de Cima, Viseu), 10 (Pias, Cinfães), 13 (S. Pedro de Paus, Resende), 17 (Vilarinho da Samardã, Vila Real), 19 (Santa Maria da Feira).

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