Polifonia vocal

Sacha do milho

Polifonia vocal – Polifonia é a emissão simultânea de sons musicais de diferentes alturas, em harmonia, ou seja, em consonância, sons que tanto podem ser produzidos por instrumentos como pela voz humana. No que diz respeito ao canto, fala-se correntemente no “cantar a vozes”, significando que o canto tem várias partes, linhas ou vozes (entenda-se, sobrepostas).

As primeiras formas elementares de polifonia vocal surgiram no séc. VIII ou IX, a duas vozes em intervalos de quarta ou quinta. Tratava-se de duas linhas vocais sobrepostas em evolução paralela e ganhou o nome de organum. Por volta do séc. XIII, surgiu o fabordão (v. cramol) e o gymel (forma de harmonização em terceiras, ou sextas, inferiores ou superiores, em relação à melodia). Depois, na Renascença a polifonia vocal a capella atingiu o seu esplendor com Orlando di Lasso, Palestrina, Arcadelt e Victoria.

As formas de canto polifónico que chegaram até aos nossos dias na boca do povo não são fruto do acaso, nem nasceram de geração espontânea ou por criação colectiva, coisa aliás que não existe (v. Criação Popular). São todas elas tributárias das antigas formas polifónicas litúrgicas que se foram elaborando a partir da Idade Média e que a Igreja continuou cultivando até ao séc. XX, desde os referidos organum e gymel até formas mais elaboradas que não cumpre aqui desenvolver. Essa música sacra era ensinada ao povo pelos sacerdotes, concretamente através da formação de capelas locais (corais de paroquianos para acompanhamento da missa e demais ofícios), ensaiadas sobretudo para as grandes solenidades religiosas do ano (Natividade, Quaresma e Semana Santa, Páscoa, festas locais), mas também para a liturgia comum.

O povo que cantava nessas ocasiões litúrgicas com o coro (capela) da sua paróquia transportou de seguida para os cantos profanos (nos campos, nos trabalhos) a estrutura polifónica assim aprendida no culto religioso. As ocasiões que proporcionavam esses cantares polifónicos eram os grandes ajuntamentos dos trabalhos agrícolas (sachas do milho, segadas do centeio, mondas do trigo, apanha da azeitona, vindimas, etc.), bem como as desfolhadas (vide), os serões ou seroadas de Inverno, no nordeste trasmontano fiadeiros – vide. A tradição popular portuguesa apresentava, por finais do séc. XX, uma notável variedade, quantidade e qualidade de exemplos musicais polifónicos, espalhados por muitas províncias: Trás-os-Montes (recolhas de Armando Leça e de José Alberto Sardinha), Minho, Douro Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral, Estremadura e Alentejo.

Discografia: Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 1, Lado A, Faixas 3 (Barroca, Fundão), 6 (Telhado, Fundão), Lado B, Faixas 1 (Facha, Ponte de Lima), 3 (Aguiar, Barcelos), 5 (Correlhã, Ponte de Lima), 6 (Arga de S. João, Caminha), 9 (Durrães, Barcelos), 10 (Aguiar, Barcelos); Disco 2, Lado A, Faixas 1 (Cambarinho, Vouzela), 2 (Talhadas, Sever de Vouga), 3 (Alcofra, Vouzela), 4 (Vermilhas, Vouzela), 6 (Manhouce, S. Pedro do Sul), 7 (Rocas do Vouga, Sever do Vouga), 9 (Talhadas, Sever do Vouga), 10 (Manhouce, S. Pedro do Sul), Lado B, Faixas 2 (Santa Marinha, Arouca), 4 (Tarouquela, Cinfães), 6 (Figueiredo, Arouca), 8 (Moimenta do Douro, Cinfães), 10 (Tarouquela, Cinfães); Disco 3, Lado B, Faixas 1 (Safara, Moura), 5 (Vila Verde de Ficalho, Serpa).

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