Mouriscada

JUN 2010  Penafiel Corpus Christi 339

Mouriscada – Nos alvores da literatura medieval europeia, as canções de gesta eram constituídas por narrativas essencialmente alimentadas por duas fontes: os feitos lendários do Rei Artur e da Távola Redonda (matéria de Bretanha) e as aventuras e sucessos bélicos de Carlos Magno e dos Doze Pares de França (matéria de França), ambas símbolos da valentia, da honra, da lealdade e da fé. Esta última, a épica do ciclo carolíngio, glorificava a figura do célebre imperador da Cristandade, como grande vencedor dos exércitos islamitas que ameaçavam a Europa e travão do seu avanço e expansão. A principal obra poética do ciclo carolíngio, a Chanson de Roland, sobrinho de Carlos Magno e chefe dos Doze Pares, foi a mais antiga canção de gesta em romanço (língua românica) e teve enorme audiência e repercussão no contexto das Cruzadas e da Guerra da Reconquista na Península Ibérica.

Todos os poemas do ciclo carolíngio exaltavam as qualidades de valentia e de fé em Cristo dos seus protagonistas, as vitórias de Carlos Magno sobre a moirama e, como tal, exerciam uma função de incentivo aos exércitos cristãos em luta contra os infiéis. A sua importância e influência no espírito da cristandade e na literatura europeia atravessaram os séculos até aos nossos dias pela via da tradição oral, pela voz dos jograis e dos seus continuadores, os ceguinhos músicos que percorriam as feiras, ruas das povoações, festas e romarias cantando essas aventuras e batalhas dos heróis cristãos, a par de outras notícias que interessavam e entusiasmavam o povo ouvinte. Ainda há poucos decénios era possível comprar folhetos de cordel com as histórias do Imperador Carlos Magno, dos Doze Pares de França, da Princesa Magalona, etc.

Não tardou que todos estes assuntos de exaltação religiosa tivessem consagração no teatro popular, a par dos autos e mistérios religiosos medievais. Tratava-se agora de representar cenas com esses heróis da Cristandade, não faltando um combate entre um exército cristão e um exército sarraceno, de que aqueles saíam invariavelmente vencedores graças à protecção e à intervenção divina. Os enredos e as circunstâncias da acção dramática podiam variar, mas tornava-se indispensável uma confrontação militar entre cristãos e mouros, com a vitória dos primeiros.

Estas peças de teatro popular ganharam por todo o lado a designação de mouriscas ou mouriscadas, em virtude de os seus intervenientes (do exército infiel, entenda-se) virem habitualmente trajados à mourisca, com vestes que a imaginação popular associa à indumentária dos árabes e com os indispensáveis alfanges semi-circulares. Tais representações dramáticas passaram a integrar partes musicais e bailadas, com danças que simulavam os combates entre mouros e cristãos, ou em que simplesmente se imitava o dançar dos infiéis, geralmente antecedendo o embate entre os dois exércitos.

Estas danças viriam a manter a denominação de mouriscas quando deixaram de integrar as peças de teatro popular e se autonomizaram transitando para procissões ou outras manifestações públicas, nomeadamente as procissões do Corpo de Deus, em cujos regimentos surgem repetidamente assinaladas – v. Corpus Christi.

De entre as representações dramático-músico-coreográficas populares desse tema que chegaram aos nossos dias, ganharam mais fama e repercussão as seguintes: o Auto de Floripes, na aldeia das Neves, Viana do Castelo; os Mouriscos e Bugios (vide) do S. João de Sobrado, Valongo; o Auto da Turquia, de S. João da Ribeira, Ponte de Lima; os Turcos de Crasto, Ponte de Lima; o Auto de Santo António, de Portela de Suzã, Viana do Castelo; Comédia dos Doze Pares, de Argozelo, Vimioso; a Dança dos Ditos, da Murtosa; a Moura de Vale Formoso, Covilhã; o Drama dos Doze Pares de França, de Palme, Viana do Castelo; o Combate de Mouros e Portugueses, de Pechão, Olhão; o Auto dos Sete Infantes de Lara, de Parada, Bragança; o Baile dos Turcos, de Penafiel, este ainda hoje, 2015, interpretado nas festividades locais do Corpus Christi. Saliente-se também a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno, provavelmente da autoria de Baltasar Dias (séc. XVI), de S. Tomé e Príncipe, para onde os portugueses transportaram a épica carolíngia, localmente designada por Tchiloli.

De tempos mais recuados há informações da expansão das mouriscadas por todo o país e em diversificadas ocasiões, o que comprova a enorme popularidade destas manifestações: Póvoa de Varzim, Ponte de Lima, S. Pedro do Sul, Torres Vedras, Almada, Guimarães, Ilha da Madeira, Coimbra, Castelo Branco, Porto, Ericeira, Mangualde, Fornos de Algodres, Pedrógão Pequeno, Valongo.

As manifestações musicais inseridas nestas representações dramáticas são as mais variadas, podendo ter suporte instrumental, ou assumir carácter meramente vocal. Podem servir para os momentos de evolução colectiva dos actores, à entrada, saída ou mudança de quadros, habitualmente com marchas, contradanças ou mesmo o fado corrido; ou para os diálogos entre os protagonistas, geralmente sem acompanhamento instrumental e assumindo formas mais ou menos melódicas, por vezes simples recitativos.

Mais: Danças Populares do Corpus Christi de Penafiel, de José Alberto Sardinha, p. 135 a 148, com o registo sonoro do Baile dos Turcos na faixa 5 do CD que acompanha o livro, bem como o filme desse baile no DVD.

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