Malhão

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Malhão – Dança popular do Minho e Douro Litoral, muito utilizada também para cantares ao desafio, cuja parte musical é muitas vezes classificada, de forma genérica e imprecisa, como “malhoada”, expressão utilizada pelos tocadores e cantadores populares na romaria da Senhora dos Remédios, Lamego, referindo-se aos cantares ao desafio do Douro Litoral (Penafiel, Paredes, Guimarães).

     Numa peça teatral levada à cena em Lisboa em 1878 caracteriza-se o malhão como “tripeiro de gema”. No Almanaque de lembranças para 1860, um artigo sobre a romagem da Senhora das Neves, Viana do Castelo, fala dos romeiros bailando a chula e o malhão. Do aro concelhio de Santo Tirso, há notícias dos finais do séc. XIX, princípios do XX, que referem os bailes populares ao malhão tanto nas romarias, como nos serões do linho. Sem embargo, existem notícias pretéritas sobre a existência do malhão noutras províncias, como é o caso de Rodney Gallop, que, nos anos 30, localizou um malhão com versos em forma paralelística na Estremadura, não dizendo, porém, exactamente em que localidade.

     Em Boliqueime, Algarve, havia, em 1898, um conjunto musical pomposamente denominado “Música do Malhão”, composto pelos melhores tocadores de harmónio, ferrinhos e, substituindo o bombo, “cântaro dos de Loulé que produzia som adequado por meio de um capacho de abanar batido na boca”. O malhão é, em geral, um baile aberto (V. Coreografia popular). José Alberto Sardinha colheu um malhão no concelho de Vinhais, Trás-osMontes e um “Malhão novo” em Amonde, Viana do Castelo, cujo tocador referiu que “é agarrado, mas em certa altura abre”.

   A origem do nome “malhão” para a conhecida moda coreográfica nortenha, deverá encontrar-se, muito provavelmente, na personagem boémia de Francisco Manoel Gomes da Silveira Malhão (1757-1816), notável tocador de banza (termo utilizado indistintamente para guitarra e viola) dos finais do séc. XVIII / princípios do XIX, e improvisador de cantigas. Natural de Óbidos, estudou em Coimbra e espalhou a sua graça, espírito e talento por toda a Estremadura (Lisboa, Mafra, Torres Vedras) até Pombal e Coimbra, sendo um grande amador de teatro. Gustavo de Matos Sequeira, Teatro de outros tempos, p. 387, diz expressamente que foi ele “o criador da cantiga que passou à posteridade”, o “Ó Malhão, triste Malhão”, adiantando que ele não era triste, ao contrário do que diz a cantiga, antes “um estoira-vergas de tomo”. A partir dessa sua criação poética, que provavelmente ele terá introduzido num tema musical em voga – e atenta a sua enorme popularidade à época -, terão crescido outras alusões poéticas ao Malhão, acabando por se atribuir esta denominação a um determinado género músico-coreográfico.

    Sem embargo, há malhões de diversificadas estruturas musicais e desenhos coreográficos. Em 1893, César das Neves, em anotação à transcrição musical de um malhão, em binário, escreveu: “O malhão é dança campestre do distrito do Porto. A dança na aldeia é simples: as damas e os cavalheiros formam-se em fila, frente a frente; e ora se aproximam, ora se afastam, batendo com o pé o ritmo indicado na introdução desta música. Por fim, fecha a roda e todos dançam pulado.”

     Discografia: Portugal – Raízes Musicais, BMG 1997, recolhas de José Alberto Sardinha, disco 1, faixa 17 (Felgueiras); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 3, Faixa 22 (Carvoeiro, Viana do Castelo); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-526 (Celorico de Basto), AF-528 (Balazar, Póvoa de Varzim), AF-529 (Santa Cruz do Bispo, Matosinhos), AF-530 (Gulpilhares, Vila Nova de Gaia).

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