Loa

Loas à Senhora do Cabo dentro do santuário de Almargem do Bispo

Loa – Cântico, próximo do recitativo, de louvor à Virgem Maria, aos santos, ao Menino Jesus, aos noivos, a altas individualidades, etc. Já na Idade Média são particularmente conhecidas as loas escritas pelo rei de Leão e Castela Afonso X, o Sábio, nas Cantigas de Santa Maria: “Muito devemos, varões / Loar a Santa Maria / Que sas graças e seus dões / Dá a quem por ela fia”.

Hoje em dia,  as loas mais conhecidas são as entoadas nos círios estremenhos pelos anjinhos, donzéis de não mais de doze anos, antes, pois, de atingirem a puberdade. Ainda hoje (2015) continuam a ser cantadas em todos os círios, pois representam elemento religioso essencial dessas manifestações (v. Círio). Na verdade, constituem a forma peculiar de a comunidade de fiéis se dirigir à divindade, saudando-A, impetrando favores, agradecendo as graças recebidas. Por isso mesmo é que os anjinhos não podem ter ainda atingido a puberdade, assim se garantindo a pureza daqueles que são os mediadores entre a divindade e a humana natureza.

As loas são deitadas na própria aldeia, à partida (no final da missa, imediatamente antes da procissão), nos locais de paragem e à chegada ao santuário em honra do orago visitado (logo que chegam, os peregrinos organizam uma procissão que dá três voltas em redor da capela ou santuário, no fim da qual os anjinhos cantam as loas virados para a entrada do templo). Depois, na missa, durante a procissão e, por fim, no regresso ao lugar de origem.

As recolhas musicais das loas destes círios indicam o mesmo desenho melódico em todas elas, não só as que foram registadas por José Alberto Sardinha nos últimos decénios do séc. XX, mas também a que se encontra notada por Armando Leça em 1917, em Alcobaça, referente a um círio que se dirigia ao santuário da Senhora da Nazaré. Musicalmente, a loa é um recitativo de grande simplicidade, que repete quase sempre a mesma nota, com acentuações rítmicas próprias de quem quer transmitir uma mensagem sonora, aparentada com o pregão, numa forma rudimentar de canto. A nota básica só é abandonada a espaços: no primeiro verso, a favor de duas momentâneas subidas de segundo grau; nos segundo e quarto versos, num suave movimento descendente, característico de final de frase, tudo num âmbito de intervalo de quarta.

     Mais: Tradições Musicais da Estremadura, Tradisom 2000, de José Alberto Sardinha, p. 265 a 282. Discografia: Faixas 7 (Rebolaria, Batalha), 10 (Miragaia, Lourinhã), 17 (Azóia, Sesimbra) e 20 (Livramento, Mafra) do CD 3 que acompanha o livro Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha; Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-451 (loa a Sto. António e loa de casamento, ambas de Especiosa, Miranda do Douro).

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