Harmónio

Bairro, Moldes, Arouca, 1993

 

Harmónio – Instrumento musical popular da família dos aerofones de palheta metálica livre (isto é, não batente, como a do clarinete), de uma carreira de botões, diatónico, bi-sonoro. Na organária, é identificado como acordeão diatónico, em virtude de os botões só darem as sete notas da escala diatónica (correspondentes às teclas brancas do piano). Na nossa nomenclatura popular, porém, nunca foi tratado por acordeão (vide), palavra que o povo português reserva para o instrumento cromático.

Muitos autores apontam como seu antecessor longínquo o chengue chinês, primitivo órgão de boca cujas primeiras notícias se situam por volta do ano 2.700 A. C. – afirmação do Pre. Amiot, repetida por quase todos. A questão está, porém, em aberto, pois não parece crível que a civilização ocidental só tenha despertado para este princípio sonoro através de uma influência tão longínqua no espaço e no tempo, sendo, para mais, certo que conhecia a palheta metálica, embora batente, pelo menos desde o séc. XV e que convivia há séculos com outros exemplos de palheta, embora batente, como o chamado palhão do “ronco” da gaita-de-foles.

O harmónio, tal como assim é designado pelo povo português, poderá ser considerado como o avô do acordeão, pois foi seu antecessor, quer historicamente, quer do ponto de vista da evolução na construção e aperfeiçoamento do instrumento. Este nasceu na Europa central (Alemanha, Áustria) nos anos 1820 e conheceu denominações variadas ao longo da sua génese e do seu processo de desenvolvimento e comercialização (aura, handaoline, aeoline, physarmonica de mão, harmonica, zieharmonica, hand-harmonica, accordion).

Os primórdios da sua invenção e construção situam-se na década de 1820 na Alemanha e na Áustria, a partir do tipótono, um afinador de palheta metálica que se tocava com o sopro humano, a que foram adicionadas novas palhetas que, sopradas simultaneamente, davam um acorde perfeito.

Seguidamente, aplicou-se o sistema à tónica e à dominante, após o que se inventou um fole ligado a uma caixa como forma de fornecimento de ar e vibração das palhetas. Como este primórdio de instrumento dava acordes, chamou-se-lhe accordion (note-se, porém, que este assim chamado accordion estava ainda muito longe do instrumento actual). O primeiro construtor a registar a patente foi o austríaco Cyrill Demian em 1829.

Os primeiros instrumentos fabricados e exportados para toda a Europa eram diatónicos (davam as notas da escala diatónica, ou seja, para facilitar o entendimento, as sete notas das teclas brancas do piano). Esta primeira fórmula instrumental veio, em Portugal, a tomar o nome de harmónio, procedente da palavra que trazia gravada dos fabricantes alemães, harmónica. Esta sofreu entre nós evolução fonética para harmónico e depois, por síncope do “c” intervocálico, para harmónio.

Ainda hoje qualquer destes termos se encontra na tradição popular portuguesa, em várias regiões do país, mas foi o termo harmónio que acabou por se consagrar entre o nosso povo. Deverá salientar-se que o nome “harmónica” vinha impresso nos instrumentos importados e era comum às harmónicas de boca (que o nosso povo preferiu denominar por gaitas-de-boca ou gaitinhavide), razão pela qual o harmónio é ainda hoje por vezes designado por “harmónio de mão”, resquício dos tempos em que era preciso distingui-lo da harmónica ou harmónio de boca.

O harmónio, primórdio do acordeão, é, como se disse, diatónico e cada botão dá duas notas, uma quando o fole é accionado para fora e outra para dentro. Mais tarde, as limitações musicais do harmónio levaram à colocação de uma segunda carreira de botões, de outra tonalidade, instrumento que começou por ser designado por harmónica de duas (por vezes duas e meia, ou mesmo três) carreiras, só recentemente vindo a conhecer o nome de concertina (vide). Aumentou-se a capacidade musical do instrumento, mas subsistiam muitas limitações, pois continuava a ser diatónico e bi-sonoro.

Por isso, acabou por se consagrar uma formulação uni-sonora (cada botão só dá uma nota, quer o fole esteja a abrir ou a fechar) e cromática (já alcança a escala cromática, isto é, as doze notas correspondentes a todas as teclas do piano, sejam brancas ou pretas), a que em Portugal se deu o nome de acordeão (vide).

A introdução do harmónio em Portugal, tanto quanto é possível até ao momento apurar-se, ocorreu na segunda metade do séc. XIX e a primeira notícia da sua presença entre nós data de 1868. No Diário de Notícias, uma reportagem da romaria do Senhor da Serra, Belas, de 1882 dá conta da presença de muitos “músicos ambulantes com seus harmoniuns, bombos, guitarras, violas e rebecas, que circulavam por toda a parte”. Em 1898, César das Neves transcreve uma chula denominada “A Mirandeza”, com partes para gaita-de-folle e também para harmónico.

Mais: Harmónios da Estremadura, de José Alberto Sardinha, no prelo; Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, p. 448 a 457. Discografia: Faixas 22 (Lourinhã), 27 (Lourinhã), 29 (Caldas da Rainha), 31 (Lourinhã), 32 (Lourinhã), 39 (Caldas da Rainha) desse livro; Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 1, Lado B, Faixa 4 (Vitorino dos Piães, Ponte de Lima), Disco 2, Lado B, Faixa 5 (Couto, Cinfães), Disco 3, Lado B, Faixa 4 (Cano, Sousel – harmónio ou harmónico de duas carreiras, ou concertina); Portugal – Raízes Musicais, recolhas de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 1, faixa 11 (Cinfães); CD 3, faixa 20 (Miranda do Corvo); CD 4, faixas 14 (Sertã), 16 (Proença-a-Nova), 23 (Oleiros), 32 (Sertã); CD 5, faixas 8 (Nisa), 12 (Nisa), 14 (Lourinhã), 24 (Nisa); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-526 (Vila Chã, Esposende, Póvoa de Varzim e Apúlia, Esposende), AF-527 (Lordelo, Paredes), AF-528 (Paços de Ferreira e Balazar, Póvoa de Varzim), AF-529 (Varziela, Felgueiras, Ovar e Santa Cruz do Bispo, Matosinhos), AF-530 (Gulpilhares, Vila Nova de Gaia e Estarreja), AF-531 (Esmoriz, Ovar e Bom Sucesso, Aveiro), AF-533 (Castelões, Vale de Cambra e Rocas, Sever do Vouga), AF-535 (Manhouce, S. Pedro do Sul); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixas 5 (Proença-a-Nova), CD 2, Faixa 13 (Proença-a-Nova).

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