Gaita-de-foles

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Gaita-de-foles – Instrumento musical popular composto por um depósito de ar denominado fole ou saco (tradicionalmente feito de pele de cabrito, recentemente de borracha); por um tubo por onde esse ar é soprado pelo tocador a fim de encher o fole, denominado soprete ou assoprete; por um outro tubo, este que recebe o ar provindo do fole, premido pelo braço, e que tem uma palheta dupla de cana, com oito ou nove orifícios jogados pelos dedos do gaiteiro obtendo a escala diatónica, a que se dá o nome de ponteiro ou ponteira; e um outro tubo denominado ronco, ronca ou roncão, este longo, que repousa sobre o ombro do gaiteiro e que dá uma nota-pedal ou bordão, produzida através de uma palheta de cana, singela, do tipo batente. A ponteira faz a melodia e o ronco produz a nota sustentada ou pedal, duas oitavas abaixo da tónica.

     É instrumento de grande antiguidade, havendo mesmo povos que lhe atribuem significado mágico, tal como aliás também acontece com a flauta. Esse sentido maravilhoso que o povo atribui a estes aerofones parece provir do facto, em si extraordinário, de nascerem sons tão melodiosos do simples sopro de ar. Dada a sua persistência actual em regiões de povoamento céltico (Irlanda, Escócia, Inglaterra, norte da Península Ibérica sobretudo Galiza), tem recebido acolhimento em certos meios a ideia de que proviria dos celtas a origem da gaita-de-foles. Certo é, porém, que o instrumento se encontra difundido por muitas zonas do globo onde os celtas nunca estiveram, pelo que se mostra errada essa ideia, sendo pois mais correcto associar simplesmente a gaita-de-foles às comunidades ligadas ao ciclo pastoril, posto que é construída com materiais que a Natureza põe à disposição do Homem: madeiras, canas e peles de animal.

       Na nossa tradição popular, ocorre habitualmente integrada no conjunto instrumental constituído por gaita, caixa e bombo. Nos finais do séc. XX, a gaita-de-foles subsistia em Portugal nas seguintes províncias: Trás-os-Montes, onde mantinha o reportório mais arcaico, como os llaços de pauliteiros, o paseado, a murinheira, o fandango, o passacalhe, a carvalhesa; Minho e Douro, em geral acompanhando numeroso grupo de percussão composto por bombos e caixas, denominados Zés-Pereiras; Beira Litoral e Estremadura, com um reportório constantemente actualizado através dos temas radiofónicos em voga para efeitos das arruadas e animação de festas civis, mas também acompanhando os círios com hinos religiosos e marchas solenes, estas para as respectivas procissões, bem como tocando para os bailes populares que ocorrem nessas romarias, aqui com um reportório híbrido que mistura temas em voga no momento com trechos musicais da tradição antiga, como corridinhos, valsas, fandangos, contradanças, etc.

      Mais: Instrumentos Musicais Populares Portugueses, de Ernesto Veiga de Oliveira; Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, p. 391-399. Discografia: Faixa 18 (Torres Vedras) do CD 2 e Faixas 11 (Torres Vedras), 12 (Lourinhã), 13 (Palmela), 15 (Palmela) do CD 3, os quais acompanham este livro; Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 1, Lado B, Faixa 11 (Ponte de Lima/ Barcelos), Disco 3, Lado A, Faixas 1 (Rio de Onor, Bragança) e 9 (Moimenta da Raia, Vinhais); Portugal – Raízes Musicais, de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 1, faixa 32 (Ponte de Lima), CD 2, faixas 1 (Bragança), 13 (Miranda do Douro), 24 (Mogadouro), 33 (Vinhais), CD 5, faixa 18 (Torres Vedras); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-532 (Condeixa), AF-451 (Cérsio, Miranda do Douro), AF-457 (Nozedo de Cima, Vinhais).

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