Flauta

Tio Gastão, Torre do Terrenho, Trancoso, 1999

Flauta – A nível popular, trata-se de um instrumento musical do chamado ciclo agro-pastoril, na medida em que é feito artesanalmente com materiais que a Natureza fornece (canas, pau de sabugueiro e de outras árvores/arbustos), do tipo dos aerofones, cujo princípio sonoro consiste na produção de som através da passagem do sopro por um canal estreito a que se chama bisel, ou a colocação dos lábios na embocadura (caso da flauta travessa ou transversal).

Muito frequentemente, o povo português não designa este instrumento por flauta, mas sim por pífaro, às vezes por gaita, ou gaita de cana (se for este o material). Na verdade, fazendo um cômputo das denominações que o instrumento conhece por todas as províncias, chegaremos à conclusão de que, para designar este instrumento, é menos frequente, por parte do nosso povo, o uso do termo flauta e mais frequente o termo pífaro ou gaita.

O instrumento usado pelos amoladores e capadores, a que os estudiosos dão o nome de flauta de Pã, nunca foi pelo povo assim designado, antes por gaita (vide). Por vezes (Algarve, Beira Litoral, Beira Baixa), o povo chama flauta, ou flaita, à gaita-de-beiços (harmónica de boca).

A maior parte das flautas é lateral (travessa) e possui seis orifícios jogados pelos dedos para fazer a escala (por vezes mais um, para o dedo polegar, na parte de baixo). O tocador sopra por um buraco oval rasgado no alinhamento dos orifícios que fazem as notas, “ajeitando a embocadura”. A este instrumento lateral, feito de pau de sabugueiro, chamam flauta em Dornelas, Aguiar da Beira, ao passo que dão o nome de pífaro ao instrumento de bisel, feito em “folha” (folha de Flandres, vulgo lata), comprado nas feiras.

Todavia, em certas regiões (Cinfães, Baião) é mais frequente a flauta em que o tocador sopra pelo topo da cana, onde está colocado um batoque de cortiça cujo rasgo conduz o ar para um bisel aberto no corpo da cana, produzindo-se o som à passagem do ar por esse bisel (chamam-lhe preferencialmente gaita, ou gaita de cana).

Existe ainda um outro tipo, também de bisel, com apenas dois orifícios mais um jogado na traseira do tubo pelo polegar, que dá a escala através dos harmónicos produzidos pelo sopro do tocador. Trata-se da chamada flauta de tamborileiro (designada por fraita em Terras de Miranda), por permitir que o tocador toque simultaneamente um tamboril com a outra mão, existente na região mirandesa e também na raia alentejana.

A maior parte dos tocadores de flauta sabe fabricá-la (artesanalmente, já se vê) e efectivamente aprendeu a fabricá-la desde muito novo, referindo que essa aprendizagem resultou da observação de outras flautas e da experimentação de construção realizada através do sistema tentativa e erro, até obter a afinação.

Mais: Instrumentos Musicais Populares Portugueses, de Ernesto Veiga de Oliveira; Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, p. 391-392. Discografia: Faixas 30 (Óbidos), 33 (Óbidos), 34 (Torres Vedras), 35 (Mafra), 37 (Torres Vedras), 40 (Óbidos), 42 (Leiria) do CD 3 que acompanha este livro; Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 1, Lado B, Faixa 8 (Galegos, Póvoa de Lanhoso), Disco 3, Lado A, Faixa 6 (Constantim, Miranda do Douro); Portugal – Raízes Musicais, de José Alberto Sardinha, BMG/Jornal de Notícias 1997, CD 1, Faixas 1 (Santa Maria da Feira), 8 (Póvoa de Lanhoso), CD 2, Faixas 2 (Santa Marta de Penaguião), 9 (Miranda do Douro), 20 (Santa Marta de Penaguião), CD 3, Faixas 2 (Castro Daire), 8 (Castro Daire), 26 (Castro Daire), CD 4, Faixas 28 (Oleiros) e 39 (Fundão), CD 5, Faixa 31 (Rio Maior), CD 6, Faixas 3 (Loulé), 17 (Loulé); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-532 (Coimbra), AF-533 (Castelões, Vale de Cambra e Rocas, Sever do Vouga).

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