Fado corrido

Cetos, Castro daire, 1987, intérpretes instrumentais da contradança do Montemuro

Fado corrido – Fado cantado e bailado, por vezes denominado simplesmente por fadinho, disseminado por todo o país, com uma estrutura musical e origens diferentes do Fado primitivo, ou fado lamentoso, este só cantado (não bailado). Apesar dessas diferenças, por que razão se chamou fado ao corrido? Porque o Fado não é, nem nunca foi, um género musical. No seu primórdio, começou por ser um género poético, de carácter narrativo, em que os ceguinhos e demais músicos ambulantes contavam e cantavam casos acontecidos, histórias de vida, desenlaces, geralmente trágicos, de vida (fados) – v. Fado. Por isso, esses fados primitivos eram, do ponto de vista musical, muito tristes. A par desses fados tristes ou lamentosos, os seus intérpretes das origens, os pobres músicos de rua, cantavam também histórias humorísticas (a vida de um cão, de um frade, de um político ridículo, etc.). Se bem que humorísticas, essas histórias também eram fados, porque também contavam casos de vidas, episódios de vida, ou seja, fados.

Mas do ponto de vista musical, esses músicos itinerantes tiveram de encontrar fórmulas mais alegres para estes fados parodísticos, consentâneas com os assuntos tratados. Para isso serviu o passacalle, género musical tradicional então muito em voga. Dadas estas características musicais, este fado, ao contrário do lamentoso, era dançável – e passou efectivamente a ser bailado (por todo o país, entenda-se, visto que, tal como o lamentoso, também o fado corrido não teve o seu berço em Lisboa).

E então, porque se chamou corrido a este fado bailado? Justamente porque a forma coreográfica maioritariamente adoptada para dançar este fado humorístico foi a roda, com os pares por vezes executando corridas ao ritmo mais acelerado da música, tal como no corridinho – vide. Estas corridas assumiam frequentemente a forma de jogo ou disputa coreográfica, visto que os pares tentavam alcançar e fazer cair o par que os antecedia, o que era muito corrente na tradição popular. O francês Teophile Gautier (séc. XIX), que foi jornalista, poeta e romancista romântico viajou por Espanha e deixou um livro com impressões dessa viagem, no qual escreveu que um dos tipos coreográficos espanhóis era a “danza en corro”, expressão que significa dança de roda em corrida. Foi, pois, esta característica de dança corrida que deu o nome ao que hoje designamos por fado corrido, por ser bailado na fórmula descrita.

O fado bailado ganhou por vezes outras denominações próprias de algumas peculiaridades coreográficas que foi adoptando, como fado batido, fado em roda, fadinho saltado, fadinho passado, fadinho rodopiado, fado mandado, etc. O fado corrido serviu (e serve) igualmente para cantar ao desafio (vide), enquanto se baila (ou não), razão pela qual recebe também, por vezes, o nome de fado da desgarrada (vide).

Identicamente ao passacalle, o corrido possui uma estrutura harmónica baseada na alternância entre tónica e dominante sobre a qual os cantadores foram criando novas melodias e variações destas. Estas melodias foram erigidas a padrões musicais onde se podiam e podem introduzir novas letras, desde que respeitadoras da respectiva métrica, segundo a muito antiga técnica do contrafactum. Esses padrões musicais ganharam denominações, algumas associadas aos seus putativos autores, outras decorrentes da letra por que foram, ou são, mais conhecidos.

Todo este circunstancialismo – e sobretudo o facto de serem desconhecidos os autores da maior parte dessas melodias – conduziu a que certos meios classificassem este tipo de fado (corrido maior, mouraria, ou o corrido menor) como “tradicional”, em contraposição ao restante fado, que passou a ser qualificado como fado-canção, considerando-se este como não-tradicional. Esta dicotomia é errónea, porquanto este último tipo de fado (N. B. – não se trata do fado com refrão) é, também ele, de raiz tradicional, estando mesmo o seu primórdio (a que chamamos fado lamentoso por causa dos temas versados e por contraposição ao fado bailado) na origem do Fado, e sendo, por isso, na sua formulação primitiva, um fenómeno poético e musical inteiramente tributário da tradição oral – v. Fado.

A origem musical dos fados corridos deverá situar-se, como se disse, no passacalhe, velho género musical utilizado pelo povo ibérico para tocar e cantar pelas ruas (pasear por las calles), nas tradicionais rondas dos rapazes, o qual veio, no séc. XVIII, a conhecer consagração erudita, pois foi cultivado por vários compositores, como Lully, Gluck e Bach. Mais tarde caído em desuso entre as classes elevadas, o passacalhe manteve-se na tradição popular e, graças à enorme versatilidade da sua estrutura musical (base harmónica com alternância entre a tónica e a dominante, permitindo grande variedade de formulações melódicas), veio a tornar-se um tronco comum de muitos géneros bailados pelo nosso povo, como os fados corridos, a chula, a cana-verde, a rusga, alguns pezinhos, alguns malhões.

Esta fonte comum para todos estes sub-géneros, ou melhor, espécies, tem dado origem a algumas confusões ou estupefações, de que destacamos: César das Neves, numa partitura da Cana Verde da Maia, escreveu como sub-título “Chula”; Rebelo Bonito atribui à chula a origem do fado (corrido, entenda-se); Renato de Almeida assinala as semelhanças entre a chula e o fado; Pedro Homem de Mello afirma que a Rusga ao Senhor da Pedra é um “autêntico fado corrido”.

Tal como o fado lamentoso, ou prístino, nunca foi privativo de Lisboa (v. Fado), assim o fado corrido sempre se encontrou disseminado por todos os recantos de Portugal, servindo nas províncias para as seguintes funções: de início, para os referidos cantos humorísticos que os músicos ambulantes interpretavam nas feiras e os rurais repetiam nos seus momentos de convivialidade; o mesmo para os duelos cantados, espécie de desafio que consiste no convite do rapaz sedutor e na recusa da moça tímida mas a final vencida; para o canto ao desafio puro e simples (vide); e também para a bailação. Habitualmente era dançado em grande roda, com os pares agarrados. Esta prática bailatória, depois de cessar na sua forma espontânea ou tradicional, transitou para o reportório dos ranchos folclóricos, que, às centenas, bailam esses fados corridos por todo o país, sob as mais diversas denominações (v. supra).

Além dos artistas do palco e da televisão, cuja prática criativa já conduziu, como se disse, à composição de inúmeras melodias sobre o corrido (ou melhor, os corridos, maior, menor e mouraria), o fado corrido continua hoje a ser praticado e vivenciado nas zonas rurais da Beira Alta e Beira Baixa na sua modalidade de canto ao desafio, quer nas festas e romarias (v. g., Senhora dos Remédios,em Lamego), quer nos encontros de cantadores ao desafio que têm vindo a ser organizados nos últimos anos.

 Mais: A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, p. 248, 249, 274 a 279, 471 a 473. Discografia: CD 3 que acompanha esse livro, Faixas 1 (Cetos, Castro Daire), 2 (S. Sebastião, Ilha Terceira), 3 (Boscras, Baião), 4 (Paradela, Miranda do Douro), 5 (Torredeita, Viseu), 6 e 7 (Velas, Ilha de S. Jorge), 8 (Couto de Cima, Viseu), 9 (Dona Maria, Sertã), 10 (Pias, Cinfães), 11 (Ribeira Seca, Ilha de S. Jorge), 12 (Eira Velha, Arganil), 13 (S. Pedro de Paus, Resende), 14 (Janeiro de Cima, Fundão), 15 (Chão da Velha, Nisa); Portugal – Raízes Musicais, BMG/Jornal de Notícias 1997, de José Alberto Sardinha, CD 3, faixa 14 (Castro Daire), CD 4, Faixa 14 (Sertã), Faixa 32 (Sertã); e ainda faixa 34 (Torres Vedras, Póvoa de Penafirme) do CD 3 que acompanha o livro Tradições Musicais da Estremadura, do mesmo autor.

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