Desgarrada

Casimiro Fernandes e André do Barroso

Desgarrada – Utilizando as mesmas formas musicais do canto ao desafio (cana-verde e malhão no Minho, Trás-os-Montes, Douro e Beira Litoral, fado corrido na Beira Alta, Beira Baixa, Ribatejo, Estremadura e em todo o centro e sul, fandango outrora em todo o país), o canto à desgarrada difere poeticamente daquele pelo facto de os cantadores se limitarem a lançar quadras soltas (desgarradas – e daí o nome), geralmente já correntes na tradição oral, sem intuitos de provocar, desafiar ou atingir o outro cantador. A desgarrada não assume, pois, o carácter repentista do desafio. A rima é a tradicional: ABCB, ou seja, o quarto verso rima com o segundo.

Assim, desgarrada e desafio (vide) são duas realidades diferentes, pelo que é errado tratá-las como sinónimos, como acontece frequentemente – e parece que generalizadamente! Na verdade, constata-se que entre o próprio povo o termo desgarrada é frequentemente utilizado para designar o canto ao desafio, erro que resulta de extensão terminológica muito habitual na tradição popular.

Como refere um cantador ao desafio da Beira Litoral, a desgarrada é feita com “quadras soltas”, ao passo que o desafio é com “quadras a atirar”, ou seja, a atacar o oponente. César das Neves, confirmando esta asserção, escreveu em 1893, em anotação à transcrição musical de um malhão, que “as cantigas, na aldeia, são desgarradas; porém, na cidade, adicionaram-lhe muitas outras, das quais a maior parte são licenciosas”.

Discografia: CD 1, faixa 9 (Azueira, Mafra) do livro Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha.

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