Criação popular

Pregão do peixe, Ericeira 1991

Criação popular – A questão de saber se o povo cria música situa-se no cerne de polémica antiga que tem dividido os estudiosos ao longo do tempo. O advento da corrente literária e artística do Romantismo, no séc. XIX, conduziu à mitificação da música dos povos europeus como fruto intemporal da alma do povo e como elemento importante da definição de cada uma das nacionalidades europeias. Todavia, a visão dos românticos está hoje abandonada. Na verdade, a criação colectiva de todo um povo não existe. É um mito. A ideia romântica do povo criador, da alma colectiva, não resiste a uma abordagem objectiva, científica, das manifestações populares.

     A criação musical é necessariamente individual, obviamente dentro dos parâmetros fornecidos pela tradição. O povo recebe, assimila, adapta, recria e vai simultaneamente rejeitando e esquecendo o que não diz nada à sua maneira de ser, de sentir e de viver. Significa isto que as tradições musicais só se mantêm no seio do povo enquanto conservarem a sua funcionalidade. Logo que deixe de existir a função social quotidiana que a sustenta, a tradição entra em processo de abandono e extinção. Rodney Gallop considerava que o máximo de criação espontânea que o povo pode atingir se situa ao nível dos aboios e dos pregões (vide).

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