Contradança

IMG_4047

Contradança – 1. A contradança é, de entre as danças que o nosso povo trouxe até aos finais do séc. XX, uma das mais antigas. O seu nome original (country dance – dança campestre) revela a sua proveniência popular e inglesa. No séc. XVII, a contradança atravessou o canal e o seu nome original, country dance, evoluíu para a corruptela contredanse em francês e entre nós para contradança. Nessa designação genérica englobavam os britânicos, tal como aliás ainda hoje sucede, todas as danças oriundas do campo e não apenas uma delas, ou sequer um tipo.

A corte de Luís XIV, com o seu amor à dança e às novidades coreográficas, recebeu, refinou e enriqueceu a contradança (ou melhor, as contradanças provenientes de Inglaterra). Depois, apurou, plasmou e elegeu um género (musical e coreográfico) de entre as muitas country dances que a Inglaterra lhe forneceu. E por fim, com o prestígio e influência cultural de que gozava, a corte do Rei-Sol irradiou essa contradança (como aliás muitas outras danças) para toda a Europa.

Em Portugal, sabe-se que já nos princípios do séc. XVIII se dançava a contradança, desconhecendo-se porém se foi introduzida pelas colónias de britânicos cá implantados, sobretudo no Norte (por vezes tem-se indicado a colónia inglesa no Porto como responsável por essa introdução), se por outras vias, como a das companhias de teatro, ou os mestres de dança vindos de França, como será mais adequado aceitar (até outras indicações) atento o que acima fica dito. Nos salões das classes elevadas, a contradança destronou e fez esquecer todas as danças antigas, incluindo o minuete, e gozou de longo reinado até vir, por sua vez, a partilhar o seu favor com as valsas e polcas do Oitocentos.

A nível popular, por imitação das classes letradas, expandiu-se a contradança e chegou aos nossos dias. Coreografia da contradança bailada até aos anos 40 em Miragaia, Lourinhã: pares em número múltiplo de quatro. Oito, doze ou dezasseis pares porque a sala não dava para mais. Grande roda, todos voltados para dentro e com as mãos dadas. Ao grito “Balancé!” soltado pelo mandador, os rapazes começas a girar num sentido e as raparigas noutro, passando uns pelos outros em cadeia, isto é, a fazer oitos.

A nova ordem do mandador, “Contrabancé!”, muda-se o sentido de movimentação até alcançarem de novo o par inicial. Sempre ao sabor da música, assegurada pelo harmónio que o povo expressamente comprara para o velho Franklim e pelos garfos nas garrafas, o corifeu dava outra voz: “Ao centro!”, altura em que os rapazes iam ao centro, ouvindo então um novo grito do mandador “Arrié!”, após o que regressavam à roda, para serem de seguida as moças a irem ao centro e voltarem.

Depois, formam em grupos de quatro (dois pares), que passam a evoluir só entre si, fazendo várias figuras e passos, entre os quais arcos com as mãos e trocas de pares, com passagem em cruz, ao som das sucessivas vozes do mandador, como “Passé!”, “Classe!” e, por fim, “Aos seus lugares!”, altura em que tornam a formar a roda grande, de mãos dadas, recomeçando a coreografia. De salientar que as vozes do mandador são quase todas corruptelas ou mesmo palavras francesas (arrié por arrière, passé por passez, ou classe incitando os bailadores a terem elegância nos passos).

Ao redor da Serra do Montemuro, nos concelhos de Cinfães, Resende e Castro Daire, a contradança conservou até aos nossos dias enorme popularidade, apresentando complexa coreografia e, por isso, também necessidade de mandador. César da Neves, no seu Cancioneiro de Músicas Populares, transcreve em compasso binário uma contradança denominada “Chegou, chegou”, colhida em 1890 no Alentejo.

2. Além da função estritamente bailatória, a contradança, pela importância que assumiu entre o nosso povo, e provavelmente pela variedade e riqueza da sua coreografia (inicialmente em coluna, depois com trespasses, voltas, arcos, estrelas, cadeia, passeio, idas ao meio, túneis, etc.), bem como pelo seu andamento marcado em compasso binário, passou também a ser usada como acompanhante de cortejos e de grupos de danças que em certas épocas festivas, sobretudo pelo entrudo, percorriam as aldeias, vilas e cidades, exibindo-se nos principais largos.

Estes grupos, bem ensaiados e organizados nas principais localidades, visavam obter compensação pecuniária pela exibição, actuando para isso nos jardins ou nos largos fronteiros às casas nobres, mais generosas no prémio. A par desses agrupamentos profissionais, mais vocacionados para as vilas e cidades, também nas aldeias se formavam idênticos cortejos entrudescos, com todas as referidas evoluções coreográficas, frequentemente também com a dança das fitas (vide), que se exibiam nas povoações em redor. Havia entusiastas especializados na organização e ensaio destas exibições colectivas, frequentemente os mesmos amadores de teatro que organizavam récitas populares (v. g. Sobral do Campo, Castelo Branco, Orca e Vale de Prazeres, Fundão).

Trata-se de uma tradição portuguesa muito importante, que procede das velhas danças de rua do Portugal Antigo, que se exibiam nas ruas e nos largos por ocasião de festividades civis ou religiosas, nas procissões e sobretudo na do Corpus Christi (vide), bem como noutros eventos de importância local.

Com o advento do liberalismo (e consequente abolição das corporações) e depois com o jacobinismo da I República e a proibição das procissões, os grupos coreográficos orientaram a sua actividade para outras festividades e essas danças de exibição transitaram assim para outras épocas do calendário, como a principal festa, civil ou religiosa, de cada concelho, os santos populares de Junho, os cortejos de oferendas que amiúde se realizavam para angariações de fundos (a favor de hospitais, das Misericórdias, dos bombeiros locais, de obras de interesse das comunidades, como o lavadouro ou o chafariz), mas sobretudo no Entrudo, concretamente dos Reis ao Entrudo.

Nas povoações mais modestas também existiam estas exibições coreográficas de rua, mas aqui a finalidade não era a obtenção de pagamento, antes a afirmação da sua terra ou freguesia perante as vizinhas através da apresentação de música e dança bem ensaiada com trajos vistosos. Esta tradição mantém ainda hoje enorme vitalidade na Ilha Terceira, onde durante os dias do entrudo as danças e bailinhos (designação local do fenómeno) percorrem todas as localidades da ilha, bem como entre os terceirenses emigrados na Califórnia. No continente, persiste nalgumas localidades esparsas (v.g. Torres Vedras e Lourinhã).

A música que, provavelmente desde o séc. XVIII, servia a todas estas representações era a da contradança – e daí o ter-se dado o nome de contradanças a tais grupos. Um exemplo interessantíssimo de contradança que ainda hoje pode ser observado na tradição popular portuguesa, é a Dança dos Pastores, do respectivo auto, representado nas festas sanjoaninas de Braga – fotografia anexa.

Estes grupos que formavam cortejos músico-coreográficos levaram justamente o nome de contradanças em virtude de a sua base musical ser a da contradança, como aliás também a base coreográfica. Mais tarde, a moda veio a impor novas músicas que substituíram a contradança nestes desempenhos exibicionais, como a marcha e o fado corrido, mas a coreografia manteve-se, tendo persistido também a denominação de contradança para designar esses agrupamentos (excepto em Lisboa, onde passaram a designar-se por marchas e estiveram na origem das chamadas Marchas dos Santos Populares ou Marchas de Lisboavide).

Noutras regiões, v. g. Terras de Basto e Vila Real, estes grupos de exibição entrudesca levavam o nome de vareira ou vareirada. Percorriam as ruas e as tabernas, devidamente trajados (eles com camisas brancas e coletes pretos, elas com avental, blusa branca e lenço na cabeça) a tocar, cantar e dançar, representando entremezes em certos locais de aglomeração de povo, ou nos largos ou nalgum palheiro. No final do entremez, tocavam e bailavam a contradança. Faziam o cortejo e executavam a exibição músico-coreográfica também nas aldeias ao redor da sua. Chamavam-lhe “botar a vareira”. Mais para o Douro, v. g. no Marco de Canaveses, chamavam-lhe rabelada ou rabela – vide.

Estas exibições coreográficas de rua, interpretadas sobretudo pelo entrudo e apresentadas com trajes uniformizados, obtinham grande sucesso perante a assistência popular, o que fez crescer o entusiasmo bairrista e deu origem em muitos casos à formação de ranchos folclóricos – vide.

 Mais: Tunas do Marão, de José Alberto Sardinha, p. 209 a 212; Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, p. 182 a 198, 372 a 382. Discografia: faixa 39 (Caldas da Rainha) e 40 (Óbidos) do CD 3 que acompanha este último livro; Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 2, Lado B, Faixas 5 (Couto, Cinfães) e 9 (Cetos, Castro Daire); Portugal – Raízes Musicais, BMG/Jornal de Notícias 1997, de José Alberto Sardinha, CD 3, Faixas 2 (Castro Daire), 12 (S. Pedro do Sul) e 26 (Castro Daire); Tunas do Marão, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixa 1 (Carvalhais, Santa Marta de Penaguião), 15 (Carvalhais, Santa Marta de Penaguião); CD 2, Faixa 5 (Ansiães, Amarante), 15 (Folhadela, Vila Real), 17 e 18 (Mosteirô, Baião), CD 4, Faixa 12 e 15 (Viariz, Baião).

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *