Cègada

Digitalização 1

Cègada – Representação dramática, musical e coreográfica, de autoria popular, para mostra pública ao ar livre. Hoje caídas em desuso, eram farsas burlescas, pequenos autos populares de conteúdo humorístico ou moralizante, meio ensaiadas, meio improvisadas, representadas na época do entrudo, com enquadramento musical, que percorriam, por essa altura, as cidades, vilas e aldeias. As partes musicais variavam conforme o enredo e o engenho dos autores. Os instrumentos musicais também variavam, mas os textos poéticos eram habitualmente encaixados em músicas já existentes e que eram populares por circularem na tradição oral, ultimamente na rádio e no disco, em contrafactum. Quase sempre incluíam também uma demonstração coreográfica, geralmente a dança das fitasvide.

     Formava-se um grupo de certa aldeia, que se exibia, nos domingos desde o dia de Reis ao Entrudo, nas aldeias em redor, como forma de afirmação colectiva da sua comunidade, fazendo entremezes musicados, com partes coreografadas, que ganhou por todo o país o nome de contradança (vide), naturalmente porque era essa a música escolhida para as evoluções coreográficas. Tratava-se de uma enraizada tradição de visitas vicinais, de exibição e afirmação perante as povoações vizinhas, de carácter dramático-músico-coreográfico, que ainda hoje se pode observar nas danças e bailinhos de entrudo da Terceira, que percorrem todos os lugares da ilha, bem como nas comunidades terceirenses radicadas na Califórnia.

    Estes entremezes musicados passaram a assumir, nas vilas e cidades, um carácter mais organizado, com mais ensaios, com autores mais refinados, com trajos e adereços, tudo exigindo uma componente financeira inexistente nos grupos informais das origens, onde vingava o amadorismo. Para suportarem as despesas e ainda arrecadarem alguma pecúnia pelo esforço e pela arte, tornou-se necessário obterem contrapartida monetária pela sua prestação músico-teatral. Justamente pelo facto de fazerem um peditório no final da actuação, à maneira dos grupos musicais de ceguinhos, ganharam estas representações o nome de cègadas. Da fase espontânea, passou-se às cègadas organizadas, de que são conhecidos exemplos provenientes da cidade de Lisboa, com autores também conhecidos e até renomados, essencialmente ligados ao fado, género musical que, na sua modalidade de corrido, serviu, neste último estádio de desenvolvimento, para estas representações dramático-musicais. Ainda persistem alguns exemplos esparsos pelo país, como é o caso de aldeias do concelho de Sesimbra, bem como da Nazaré, onde os grupos de cada bairro e freguesia se apresentam nas sociedades recreativas.

     Mais: Tunas do Marão, de José Alberto Sardinha, p.134 a 172 e discos que acompanham esta obra – faixa 18 do CD 3 e faixas 9, 19 e 22 do CD 4; Tradições Musicais da Estremadura, de José Alberto Sardinha, p. 176 a 182 e faixa 14 (Anços, Sintra) do CD 2 que acompanha este livro.

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