Cavaquinho

Adaúfe, Braga, 1998

Cavaquinho – Pequena viola popular de quatro cordas singelas apenas, correspondente ao tiple da família da viola nacional, com a mesma forma de corpo em oito, mas de diminutas dimensões, outrora disseminado por todo o território nacional, mas nos finais de Novecentos circunscrito ao Entre Douro e Minho (também manchas da Beira Litoral e Beira Alta) e Madeira, onde é conhecido por braguinha – vide.

O nome provém justamente da sua pequena dimensão, posto que é costume chamar-se cavaco a um bocado pequeno de madeira. A sua função é de acompanhamento rítmico/harmónico, ao rasgado mas com passagens muito rápidas e repenicadas dos dedos sobre as cordas, embora fosse antigamente usado também como instrumento solista ou “cantante”, como de certa forma ainda acontece na Madeira.

Na tradição popular portuguesa, surge habitualmente integrado em conjuntos instrumentais com outros cordofones, como a viola e o violão, por vezes também com o harmónio e a concertina, interpretando música bailada. Tal como a viola da tradição oral moderna (vide) é o prolongamento popular da viola erudita, maxime da viola barroca, assim também o nosso actual cavaquinho era outrora instrumento musical de salão, como indica a investigação de Manuel Morais, que revelou a existência de partituras de música erudita para o mesmo.

Na nossa tradição popular, o cavaquinho é tocado de rasgado e atinge ritmo surpreendente e saltitante (foi levado por madeirenses para o Havai, onde ganhou o nome de ukulele, que significa pulga saltadora), conforme o virtuosismo do executante.

Ouve-se, por vezes, dizer que o disco do músico popular Júlio Pereira, intitulado Cavaquinho, teria restituído a prática do instrumento junto do povo rural que o teria, por essa altura (anos 80), já abandonado. Tal não corresponde, porém, à verdade, porquanto o instrumento nunca foi esquecido pelo povo, que nunca deixara de o tocar, não só nos ranchos de representação folclórica, mas também nas chuladas e pequenos grupos musicais das aldeias do Minho, Douro e Beira Litoral.

Também já se tem escrito que o cavaquinho nasceu no Minho e que depois se expandiu para outras regiões, opinião errónea que não alcança a verdadeira origem do cavaquinho como tiple da viola erudita e como ela instrumento dos salões, só mais tarde vindo a popularizar-se. Existem aliás, notícias do cavaquinho provenientes de muitas regiões do país, inclusive Lisboa, onde os violeiros construíam o pequeno instrumento para a prática popular com grande perfeição.

Como sempre, não faltaram os “inventores” do instrumento, como se pode ler em Adrien Balbi, Essai statistique sur le royaume de Portugal et d’Algarve, II, CCXIII: “Joaquim Manoel, mulato do Rio de Janeiro, dotado de um raro talento para a música, famoso sobretudo por tocar perfeitamente uma pequena viola francesa de sua invenção, denominada cavaquinho” (1822).

Mais: Instrumentos Musicais Populares Portugueses, de Ernesto Veiga de Oliveira. Discografia: Recolhas Musicais da Tradição Oral Portuguesa, 1982, de José Alberto Sardinha, Disco 1, Lado B, Faixa 4 (Vitorino dos Piães, Ponte de Lima); Portugal – Raízes Musicais, BMG/Jornal de Notícias 1997, de José Alberto Sardinha, CD 1, Faixas 1 (Santa Maria da Feira), 19 (Ponte de Lima) e 25 (Celorico de Basto); A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 3, Faixa 22 (Carvoeiro, Viana do Castelo); Recolhas de Armando Leça, inéditas, arquivo RDP, bobine AF-530 (O velho – Leça da Palmeira), AF-531 (Rusga – Esmoriz, Ovar), AF-526 (Apúlia, Esposende), AF-528 (Balazar, Póvoa de Varzim), AF-530 (Leça da Palmeira e Estarreja), AF-531 (Vila da Feira e Esmoriz, Ovar).

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