Campaniça, Viola

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Campaniça, Viola – Pertencente à família da viola popular portuguesa (v. Viola), era conhecida, como aliás todas as outras violas, por viola de arame ou simplesmente viola, acabando por receber o nome de campaniça pela primeira vez em 1916. Sem embargo, o povo nunca tratou o instrumento por esse nome, mas apenas por viola, ou viola de arame, aliás de harmonia com o que sucedeu com as restantes espécies de viola – vide. Só recentemente, após o seu ressurgimento (vide infra), a designação de campaniça se generalizou.

A viola campaniça foi instrumento musical dos bailes e do canto alentejano, quer o cante polifónico colectivo, quer o desafio (despique ou baldãovide) e era popular praticamente por todo o Baixo Alentejo e certas manchas do Algarve. Foi referenciada por Armando Leça em Vila Verde de Ficalho, mas das suas gravações não consta nenhum registo sonoro de viola campaniça (por isso que a fotografia publicada por este investigador mostra o instrumento já em desuso e mau estado).

Ernesto Veiga de Oliveira localizou e entrevistou um tocador do instrumento, Jorge Caranova, na primeira metade dos anos 60 durante a investigação de campo de que resultou o livro Instrumentos Musicais Populares Portugueses, e Michel Giacometti gravou um outro tocador em Sabóia, Odemira, nos finais desse decénio. Julgava-se que estes dois tocadores seriam os últimos intérpretes do instrumento e, pelo fim da década de 1970, pensava-se não existir qualquer tocador tradicional vivo e que a viola campaniça estivesse totalmente extinta no seu ambiente natural.

Porém, em pesquisa que realizou no princípio dos anos 80, José Alberto Sardinha viria a localizar cinco tocadores desta viola: António Jacinto, do Monte das Figueirinhas, Odemira; Manuel Bento, da Funcheira, Ourique; Francisco António, de Ourique-Gare, Castro Verde; Manuel Inácio Verónica, de Amoreiras-Gare, Odemira; António Emídio, da Aldeia de Palheiros, Ourique, estes sim, os últimos representantes da velha tradição da viola campaniça, todos eles de uma região circunscrita aos aros concelhios de Odemira, Ourique e Castro Verde (logo de seguida também Amílcar Silva, da Corte Malhão, Odemira, e António José Bernardo).

Desta pesquisa resultou, em 1986, a edição de Viola Campaniça, o outro Alentejo, disco de vinil em que se identificavam todos os referidos tocadores e respectivas aldeias, reproduzindo-se fotografias e registos sonoros de todos eles. Esta obra viria a ser determinante no movimento de ressurgimento da viola campaniça, como se passa a explicar.

Poucos anos depois da sua publicação, este disco viria a ser difundido exaustivamente no programa radiofónico “Património”, da Rádio Castrense, a cargo de José Francisco Colaço Guerreiro, o que gerou um grande movimento de interesse em torno dos tocadores ainda vivos, que chegaram a ir pessoalmente ao mesmo programa.

Em Outubro de 1988, por iniciativa de José Alberto Sardinha, que colaborou no ciclo sobre a Viola Campaniça organizado pelo Museu da Música Portuguesa Verdades de Faria, no Monte Estoril, actuaram neste museu os tocadores Francisco António e Manuel Bento, cantando com Maria Perpétua, na sua primeira apresentação pública na região de Lisboa. Seguiram-se outras actuações de relevo desse pequeno grupo, inclusive no estrangeiro, aumentando o interesse sobre o instrumento, que tão esquecido tinha andado.

Em 2001, José Alberto Sardinha publicou novo estudo que deu novo impulso à projecção que a viola campaniça vinha granjeando: tratou-se de um livro, de 206 páginas, com o mesmo título da obra discográfica, Viola campaniça – o outro Alentejo, no qual se desenvolve a origem da viola popular portuguesa, bem como a sua importância sócio-musical, contando ainda com um apêndice sobre a construção da campaniça, este a cargo de Pedro Caldeira Cabral, livro este acompanhado com dois CDs. contendo setenta e oito registos sonoros colhidos junto dos velhos tocadores tradicionais nos aros concelhios de Ourique, Castro Verde e Odemira.

Em razão da referida divulgação radiofónica e do movimento que se foi gerando, emergiu então um jovem músico, Pedro Mestre, já de si conhecedor da tradição coral alentejana por integrar desde novo o grupo coral Os Carapinhas, de Castro Verde, que ficou entusiasmado com a sonoridade da campaniça e foi aprender a tocá-la com o referido Francisco António, de Ourique-Gare, que passou a ser seu mestre.

Graças às suas qualidades e empenhamento, Pedro Mestre tornou-se então figura central do movimento de recuperação da viola campaniça, existindo hoje escolas, alunos, novos construtores e um grande entusiasmo em torno deste instrumento musical baixo-alentejano. A importância cultural e regional deste movimento é maior se atendermos ao facto de que, entretanto, faleceram já os referidos tocadores tradicionais do instrumento, o último dos quais foi Manuel Bento.

Mais: Instrumentos Musicais Populares Portugueses, de Ernesto Veiga de Oliveira; Viola campaniça, o outro Alentejo, disco de vinil, 1986, de José Alberto Sardinha, com dezassete registos sonoros dos últimos tocadores tradicionais; Viola campaniça, o outro Alentejo, livro do Círculo de Leitores/Tradisom, 2001, de José Alberto Sardinha;  Discografia: Viola Campaniça – o outro Alentejo (edição em disco vinil e também, com o mesmo título, edição em livro, este acompanhado por dois CDs, com registos sonoros colhidos nos concelhos de Ourique, Castro Verde e Odemira), ambas as obras da autoria e recolhas de José Alberto Sardinha; A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha, CD 2, Faixa 10 (Corte Malhão, Odemira).

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