Bugiada

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Bugiada – Nome por que é hoje conhecida a manifestação músico-coreográfica que se exibe em Sobrado, Valongo, no dia de S. João, a qual radica essencialmente numa mouriscada – vide. O termo bugiada provém do facto de os dançantes darem pulos e fazerem macaquices à semelhança dos bugios. É esse o significado dicionarizado do vocábulo: bugio (espécie de macaco), bugiaria (gestos ou modos de bugio, momices, macaquices) e bugiada (porção de bugios, macacaria) – vide, i. a., Dicionário de Moraes. No Brasil, ainda hoje se chama capela de bugios a um grupo de macacos.

O Pre. Joaquim Lopes Reis, no livro A Villa de Valongo – suas tradições e história, descrição, costumes e monumentos, publicado em 1904, fornece informações muito interessantes sobre as festividades de Valongo e também sobre as de Sobrado, às quais dedica a seguinte nota de rodapé: “Em Sobrado, freguesia do concelho de Valongo, se fazem todos os anos no dia de S. João as danças da mourisca e bugiada, que nada tem de comum com a de Valongo, tornando-se os seus bugios notáveis pelas momices que praticam e cabriolas altamente caricatas que fazem. Em saltar ninguém lhes ganha”.

Esta associação do termo bugio aos saltos, cabriolas e momices resulta, assim, como se disse, do facto de os dançantes darem pulos e fazerem macaquices à semelhança dos bugios. Se a isso juntarmos vestimentas extravagantes, guizos nas mãos e nos pés, teremos uma ideia do delírio musical e bailatório do espectáculo.

Por este informe fica também absolutamente claro que, nos finais do séc. XIX / princípios do XX, as danças da mourisca e da bugiada de Sobrado eram coisas diferentes e autónomas.  Essas duas danças provinham da imitação das danças que ocorriam nas festas de Santo António da vila de Valongo, estas por sua vez procedentes da procissão de Corpus Christi outrora aí existente – v. Corpus Christi e Mouriscada. Depois, ao longo do séc. XX, deu-se a fusão das duas danças mediante a introdução de uma trama teatral operada pela inventiva popular.

Lembre-se que os regimentos das procissões do Corpo de Deus dos sécs. XVI, XVII e XVIII referem, em quase todas  as localidades do país, a exibição de danças de bugios. Como é frequente nas tradições populares, foram caindo em desuso nuns sítios, tendo-se conservado noutros. Foi o caso de Sobrado que, fundindo as duas danças numa mesma representação, conservou até hoje esta rica tradição dramático-músico-coreográfica.

MaisDanças Populares do Corpus Christi de Penafiel, p. 60 a 63, de José Alberto Sardinha.

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